coluna

Ping Paik

Fábio Oliveira Nunes

Arte e fracasso tecnológico



         
Imagens da intervenção Peregrinação (2024) de José Loures.

 

Em abril de 2026, surgiu no Facebook um curioso vídeo do artista Amante da Heresia. Sorridente e com uma taça de vinho na mão, o artista celebrava o “fracasso” de uma série de vídeos feitos para divulgar o lançamento de seu livro que, ao final de um mês, não alcançou nenhum novo leitor. Nenhum download foi feito. Antes que alguém já pense em enumerar as estratégias de engajamento nas redes sociais, vale saber quem é Amante da Heresia. Trata-se de Léo Pimentel, artista-pesquisador com pós-doutorado na Universidade Federal de Goiás. Suas criações se inspiram no legado do punk, movimento surgido na década de 1970 que além de sua contestação política e artística, trazia a filosofia DIY – Do It Yourself, faça você mesmo! Não por acaso, aquele livro a que se refere o vídeo, era justamente sobre zines – publicações criadas de forma independente, às margens da indústria cultural. O livro se chama Zinbioses e fala da aproximação da ideia de zine a diferentes linguagens artísticas. 

Quando falamos de Indústria Cultural, cabe citar os teóricos Theodor Adorno e Max Horkheimer que criaram o termo nos anos 1940, no livro Dialética do Esclarecimento, para definir, tal como seria uma fábrica, a produção de bens culturais padronizados – que podem ser filmes, programas de rádio, revistas – que visam, em última análise, manipular a sociedade, inclusive do ponto de vista psicológico, criando novas necessidades. Juro que quando surgiu a Internet, nos anos 1990, parecia que o fim da indústria cultural estava próximo. Pois em primeiro lugar, a Internet trazia múltiplos atores, inúmeros canais de informação; todos se comunicam com todos, ao contrário da unilateralidade dos jornais, rádios e TVs, baseados no poderio econômico. E embora tenha surgido enquanto uma ferramenta de guerra, criada pelo departamento de defesa dos Estados Unidos, sua implantação contou com jovens ideologicamente engajados em uma utopia viva da difusão da informação: “a Internet é um legado tecnológico dos hippies”, como diria Fred Turner no livro From Counterculture to Cyberculture, em 2006. 

Embora pareça utópico pensar uma comunicação horizontalizada, sem hierarquia, na qual seus atores não possuem valor maior que outros, estejam onde estiverem, isso é a Internet em sua essência. E esse golpe que teria sido dado na indústria cultural coube também a outras estruturas hegemônicas: quando os artistas se apropriam da Internet, criando trabalhos de web arte (ou net art) nos anos 1990, proporcionando uma relação direta entre artista e público, parecia relativizar as instituições culturais que determinavam a relevância deste ou daquele artista. Ou seja, o meu site pessoal está em pé de igualdade com o site do Louvre em Paris ou da CNN em Atlanta! Porém, infelizmente, a indústria cultural não se compõe apenas de seus players – as empresas de comunicação que nascem, morrem, fundem-se – mas de paradigmas que estão implicados profundamente na nossa cultura, seja em qual meio for.

O teórico brasileiro Arlindo Machado, em seu ensaio Arte e Mídia de 2004, é certeiro ao falar de como os algoritmos de compactação de vídeos digitais estão impregnados da “filosofia” da nossa cultura padronizada. Tecnicamente falando, arquivos de vídeo são enormes quando comparados a arquivos de texto ou sonoros, por exemplo; por isso, é fundamental que esses arquivos sejam compactados, a fim de permitir a otimização de seu armazenamento e transmissões mais viáveis através da Internet. Esses algoritmos partem de uma premissa fundamental: toda imagem de vídeo possui uma taxa gigantesca de redundância, considerando que áreas significativas da imagem vão se repetindo em quadros seguintes, sem alterações substanciosas. Imagine, por exemplo, uma cena de novela: atores em cena em primeiro plano em um ambiente fechado, nada muda no cenário ao fundo. Aí está a redundância técnica, a informação que se repete quadro-a-quadro e que pode ser suprimida para que o arquivo fique compacto. Eis que parece a solução para qualquer tipo de vídeo, correto? Não exatamente, já que, conforme muito bem situa Machado, há imagens limítrofes da arte, como os flickering films – filmes “piscantes” do cinema experimental estadunidense em que cada quadro é diferente do quadro seguinte. É aí que Machado traz a consistência para a arte nesse contexto – o fato de que questões fundamentais para a arte contemporânea, como o estranhamento, a incerteza, a indeterminação, o colapso ou o desconforto existencial, não estão na perspectiva do mercado e da indústria, “ambientes que são usualmente positivos, otimistas e banalizados”.

Neste sentido, a arte é sempre pertinente como forma de desvelar as condições de sua época. Posso lembrar, por exemplo, da Freakpedia, obra de web arte criada por Edgar Franco (hoje também conhecido por Ciberpajé) e Fabio FON (este artista que vos escreve) em 2007, que nasce como resposta icônica a uma série de eliminações de verbetes de arte experimental na edição brasileira da Wikipedia. Ainda que atualmente a conhecida enciclopédia seja, sem dúvida, um dos últimos bastiões contra o negacionismo e a difusão de notícias falsas, nos anos 2000 era comum que verbetes sobre artistas e grupos sem a validação da indústria fossem apagados sob o critério de “relevância”. Naquele momento foram apagados, entre outros, textos sobre o dadaísta Kurt Schwitters, sobre o icônico coletivo atuante nos anos 1970 Viajou sem passaporte e sobre a Nóisgrande, revista digital-objeto experimental que organizei em 2006. Assim, criamos a Freakpedia, uma enciclopédia sem relevância, em que todos os verbetes não possuíam importância. Assim como na Wikipedia, a Freakpedia permitia que usuários pudessem publicar e editar verbetes. Hoje a Freakpedia não está mais online, mas na Wikipedia alguns dos verbetes apagados foram restaurados.


Verbete de Freakpedia (2007) de Edgar Franco e Fabio FON.

 

Pois bem, com a ascensão das bigtechs – as grandes corporações da Internet – a partir da década de 2010, consolidando as redes sociais como sinônimo da Internet, mostraram que a utopia da Internet dos anos 1990 se perdeu e que, na verdade, estamos diante de uma nova indústria cultural, muito mais poderosa no domínio cognitivo de seu público. Vale aproximar as ideias de Jack Halberstam, que no livro Arte queer do fracasso (lançado no Brasil em 2020) critica justamente a hegemonia do “pensamento positivo” – que é amplificado nas redes sociais. O pensamento positivo reconhece apenas o sucesso como forma de vida das pessoas boas, sendo o fracasso a consequência indesejável, fruto de um comportamento fora dos padrões. Na verdade, sabemos bem que o fracasso é também um lugar frutífero, das possibilidades de viver a vida de outras maneiras, longe do otimismo-padrão.  

Esse cenário é traduzido em muitos trabalhos de arte e tecnologia. Cabe citar, por exemplo, o trabalho do artista brasileiro José Loures que, em 2024, foi diagnosticado com depressão e transtorno de ansiedade. Certa vez, tendo que rotineiramente realizar o mesmo percurso entre sua casa e a farmácia onde adquiria os medicamentos para o seu tratamento, em Anápolis, no interior de Goiás, resolveu realizar uma intervenção artística. O título do trabalho é Peregrinação. São criadas duas séries de cartazes, fixados no espaço público daquele percurso. Uma primeira série ostentava em letras garrafais a frase “trago a pessoa odiada em 3 segundos – garantia total” e outra, de forma semelhante, apresentava a frase “afasto a pessoa amada em 3 segundos – garantia total”. A aparência de ambas as séries – bem como o texto – joga com as expectativas em torno de anúncios de serviços esotéricos, que prometem “trazer a pessoa amada”, ainda que aqui as curiosas antíteses emerjam para leitores mais atentos. Além do texto, cada cartaz traz um QR Code que – ao utilizar um smartphone – direciona o público a duas páginas da Internet que contabilizam numericamente os acessos daqueles que se interessaram pelas ações para a pessoa “odiada” ou para a pessoa “amada”. Ambas as páginas trazem o mesmo conteúdo: o significado dicionarizado da palavra “eu”.

Ao seu modo, a obra traduz dinâmicas das redes sociais: as ações de amar (os likes) ou odiar (os haters) são cotidianamente instrumentalizadas em postagens da Internet, resumindo-se em grandezas numéricas. Afinal, não há autoestima imune a acanhados likes naquela postagem que você acreditava ser sensacional. É também sabido que esse tipo de plataforma presume a exposição de si – ou seja, o “eu” sistematicamente exposto – mesmo que essa prática não seja necessariamente saudável. Para algumas pessoas, diversos mecanismos das redes sociais como a comparação social – comparar-se a vidas supostamente perfeitas de outras pessoas – ou o bombardeio de estímulos – o cérebro em constante alerta e estresse – afetam negativamente o bem-estar psicológico. As pessoas, portanto, tornam-se mais vulneráveis a doenças como aquelas tratadas pelo artista no período da ação. 

Na cidade, a intervenção ganhou repercussão na imprensa, enquanto uma “proposta absurda” – o ponto fora da curva para o que é esperado, não é absurdo para a arte contemporânea, evidentemente. Pelo contrário, é interessante pensar que a arte em novos meios pode ser um caminho para se pensar criticamente os meios, deslocando as atenções, indo além da banalidade, otimismo e positividade de que fala Machado, e que é regra extensível à grande massa de informações que interpelam cotidianamente. Eis que voltamos ao vídeo do Amante da Heresia no início do texto. Sorridente e com uma taça de vinho na mão, o artista celebra o seu “fracasso” de nenhuma visualização de seu livro. Mas, o que é o fracasso diante de algoritmos que proporcionam importância para aquilo que gera reações instintivas, imediatas, deletérias? Satisfeito em fracassar diante da eficiência e produtividade implicadas nesses ecossistemas, como diria o artista, esse fracasso é um orgulho diante da crueldade do próprio sistema.

 

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Em tempo: o título desta coluna – Ping Paik – é uma homenagem ao célebre artista sul-coreano Nam June Paik (1932-2006), um dos pioneiros na videoarte. Paik é lembrado por vários trabalhos icônicos como Magnet TV (1965), na qual há uma escultura composta por um televisor ligado e um imã industrial. O imã, posicionado sobre o aparelho, distorce a imagem exibida na TV, tirando a autonomia do dispositivo. Na verdade, mais do que isso: imãs, como se sabe, danificam permanentemente televisores e outros componentes eletrônicos; o gesto do artista como algo perigoso à tecnologia é bastante simbólico. Ping, por sua vez, é uma ferramenta de diagnóstico de redes digitais que mede o tempo que os dados levam para ir a um servidor e voltar; a informação estético-política que vai e volta, nosso Ping Paik. 




Fábio Oliveira Nunes


Fabio FON (ou Fabio Oliveira Nunes) é artista visual, curador, pesquisador e parecerista cultural. FON tem realizado obras de arte, eventos, palestras e publicações voltados a linguagens contemporâneas, em especial, poesia digital, web arte, design, inteligência artificial, instalações interativas e computação gráfica com mais de 25 anos de atuação. Na área de literatura, tem organizado coletâneas e mostras sobre poesia digital, além de produzir poemas eletrônicos veiculados em diferentes meios e publicações. Na área de artes visuais dedica-se desde 2000 à pesquisa sobre arte e tecnologia para a Internet (web arte, net art), mantendo o mais longevo site de levantamento e difusão de obras brasileiras, o site Web Arte no Brasil. É também autor dos livros CTRL+ART+DEL: distúrbios em arte e tecnologia (Ed. Perspectiva, 2010) e Mentira de artista: arte (e tecnologia) que nos engana para repensarmos o mundo (Cosmogonias Elétricas, 2016). É Doutor em Artes na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (USP) com pós-doutorado em artes no Instituto de Artes da Universidade Estadual Paulista (UNESP) e Mestre em Multimeios na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Site www.fabiofon.com
Insta/Face/YT @fabiofondotcom

 

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