coluna

Jardim Alheio

Vivian Schlesinger

Dante no faroeste

 

 

 

Parte 1

Você já se perguntou quem remove os animais mortos em estradas pelo Brasil? Um cachorro ou um gambá rapidamente se desintegram debaixo dos automóveis, caminhões e ônibus que passam continuamente. Mas o que acontece quando se atropela uma vaca? Ou um cavalo? Em primeiro lugar, o motorista do veículo e eventuais passageiros, se sobreviverem, possivelmente terão sofrido ferimentos graves. É preciso atendê-los primeiro, claro. Depois que a ambulância partir com os feridos e o guincho com o carro, ainda resta o animal. Alguém precisa resolver isso. 

Em 1993, em uma viagem com a família, tivemos a infeliz ideia de ir de Tel Aviv ao Cairo de ônibus, para conhecer o Egito. Infeliz na escolha do veículo, porque foram 13 horas pelo deserto. Assim que entramos em solo egípcio, formou-se um comboio de jipes militares carregados de homens apontando suas metralhadoras em todas as direções, à frente e atrás do ônibus. Era época de muito terrorismo interno e um ônibus com estrangeiros era um alvo chamativo. Só naquele ano no Egito foram assassinadas 1103 pessoas pela Jihad Islâmica, entre policiais, civis e turistas.

Formado o comboio, partimos. Após cerca de 8 horas sacolejando na estrada que cortava o deserto em linha reta, paramos de repente, no meio do nada. O que houve? Um camelo atropelado por um caminhão agonizava, atravessado entre as duas pistas. Os sons que o pobre animal produzia vinham do inferno dos camelos. Dezenas de pessoas juntaram-se ao redor, todos falando ao mesmo tempo, gesticulando como se estivessem brigando (não estavam), filas de carros formando-se nas duas direções. Alguém tentou organizar a remoção do camelo. Os militares, bastante jovens, pareciam entretidos, nem se lembravam do comboio. Usavam a metralhadora para apoiar-se na areia enquanto discutiam o que fazer. Quando surgiram cordas e começaram a amarrá-las ao redor das patas, o animal esboçou levantar-se, relinchou, coiceou, e tombou outra vez. Susto geral. Os militares que faziam a escolta do ônibus, quase que por reflexo, apontaram suas armas ao animal. Por sorte ninguém atirou. 

Não era possível passar pela estrada, então o motorista do ônibus decidiu fazer um desvio pela areia. Era arriscado, areia não é solo confiável, mas formou-se a escolta, e lá fomos nós. Ufa, passamos. Aliviados, começamos a antever com prazer a semana que passaríamos entre pirâmides e faraós.


Foto ilustrativa de estrada para Tel Aviv

 

Foi ótimo. No dia da volta, nova escolta, tudo igual. Tudo mesmo: o camelo ainda estava lá. Morto, claro, disputado por abutres e legiões de moscas. O cheiro penetrou pelas janelas abertas feito tempestade de areia invisível. Nova parada. Novamente desceram soldados, motoristas, curiosos. A alça alternativa na areia, feita na ida, agora estava intransitável. Era preciso fazer um arco muito maior para fora da estrada. Brigavam (desta vez, sim), o motorista se recusava, os soldados insistiam. Eles venceram. Era arriscado: se o ônibus atolasse na areia, quem sabe quantos dias ficaríamos ali? Não aconteceu. Voltamos para a estrada e muitas horas mais tarde chegamos a Tel Aviv. A viagem tinha valido muito a pena, claro, mas além de história egípcia, aprendemos que animais mortos dificilmente saem do local do acidente por si só. Alguém precisa removê-los. Civilização contempla alguns com trabalhos glamourosos, outros, nem tanto.

Ana Paula Maia não precisou ir ao Egito para enxergar as pessoas que fazem um trabalho invisível, mas indispensável, do nosso mundo. Desde O habitante de falhas subterrâneas, seu primeiro romance, já demonstrou esse olhar incomum, essa capacidade de ver o que todos veem mas enxergar o que ninguém enxerga. Ali tratava-se de um adolescente inspirado em Holden Caulfield, de Apanhador no campo de centeio, cheio de conflitos, e como o próprio título indica, um habitante de locais invisíveis, especialmente a solidão. Se há um mundo em comum entre todos os seus romances até agora é justamente a solidão que seus protagonistas habitam. 

 

     

 

O percurso de Ana Paula Maia não foi direto à escrita. Nasceu na periferia de Nova Iguaçu, Rio de Janeiro, mas cresceu em meio a muitos livros, por influência da mãe, professora de língua portuguesa e literatura. Cinema também fez parte da sua formação cultural, bem como a violência do bairro onde morava. Estudou teatro, foi baterista em uma banda de punk rock, graduou-se em Ciência da Computação e em Comunicação Social. Mas nenhuma dessas áreas cativou seu espírito de forma permanente, isso só aconteceu na literatura. Publicou seu primeiro romance em 2003, e desde então são 8 livros no Brasil, entre romances, contos e novelas, e participação em mais de 15 antologias. Seus livros foram traduzidos ao italiano, alemão, francês, espanhol e sérvio. Além da recepção pelo público brasileiro e internacional, Ana Paula Maia venceu, por dois anos seguidos, o Prêmio São Paulo de Literatura, o maior prêmio literário no Brasil - feito, até agora, inigualado. 

 

 

Há muitas qualidades que explicam esse sucesso: a força da linguagem, a temática original, a abordagem crua e sem firulas, mas principalmente a criação de personagens incomuns mas não excepcionais, fraturados por conflitos essenciais, que não obrigam o leitor a tomar uma posição (entre dois polos, claro), diferente do que faz a maior parte da literatura contemporânea brasileira. O leitor, nos livros de Maia, depara-se com questões que podem ficar mudas por muitos anos, mas à medida que nos distanciamos do nascimento e nos aproximamos da outra ponta, ganham voz e ficam difíceis de ignorar: qual é a importância do que eu faço? A quem eu de fato respondo pelas minhas ações?

Boa parte das resenhas sobre seus livros apontam os temas relacionados ao trabalho "invisível" como se fosse uma lição, algo para ser observado pelo leitor nos personagens, de fora para dentro. Essa interpretação pode não estar errada, mas ela é redutora, como se a sociologia bastasse para explicar o comportamento humano. A meu ver os personagens de Ana Paula Maia levantam-se da página porque eles mesmos estão se fazendo perguntas, ainda que não as verbalizem. 

Para a maioria das pessoas, não perceber a presença do mal é um sinal de que tudo está bem. Para Edgar Wilson, é justamente o contrário. Não pressentir o mal não é sinônimo de que ele não existe ou desapareceu. São os opostos devidamente dosados que mantêm o sistema equilibrado e, assim, se o mal se ausentou, é provável que o bem também o tenha feito.

 

Eles não estão em um "Truman Show" - filme de 1998 dirigido por Peter Weir, onde o protagonista não tem consciência que é um ator em um reality show desde a infância. Edgar Wilson, protagonista de vários romances de Ana Paula Maia, por exemplo, sabe de sua invisibilidade. Ele sabe que ninguém está olhando, que sua vida, portanto sua morte, são insignificantes para os outros. Em um momento, quando Tomás e Edgar estão dentro do carro,  

O dia, por fim amanhece pesado. Uma camada grossa de nuvens reparte o céu, deixando o brilho do sol e o azul límpido em outra dimensão. As primeiras gotas de chuva caem sobre o para-brisa da Caravan. O rádio, baixinho, narra os principais acontecimentos dos últimos dias. Mas em nada esses acontecimentos envolvem os dois homens sentados neste carro. Tudo parece muito distante daqui. Ninguém parece se importar com animais mortos em estradas... 

Não trabalham por prazer, tampouco são revoltados. Fazem o que é preciso fazer. É um trabalho invisível, pesado, sem plano de carreira, não exige currículo nem genialidade. Mesmo assim, não é para qualquer um. Essa é a beleza dos personagens de Ana Paula Maia, são pessoas incomuns, mas não dotadas de superpoderes, só de uma consciência soberana.  

 

 

Parte 2

Ana Paula Maia tem muitos talentos. Em 2003 Moacir Chaves montou a peça O rei dos escombros, escrita por Maia, junto com Mauro Santa Cecilia e Ricardo Petraglia. É a história de um ator, endividado, sem emprego e separado, que tenta se suicidar, mas acaba parando em um mundo cheio de escombros. O tema da morte e do mundo que a rodeia, depois tão bem representado na obra de Maia, já está presente aqui, apesar de tratar-se de uma comédia. Ela afirma em algumas entrevistas que filmes de terror e de faroeste eram seus favoritos na infância e adolescência. Se boa parte da intelligentsia, nesses gêneros, só enxerga a violência, outros como Clint Eastwood ou Roman Polanski podem ir além e enxergar que no mundo do faroeste ou do terror a violência é o meio, o fim é a salvação da alma. 

 

     
Foto ilustrativa de filme de Clint Eastwood

 

Maia também escreveu o roteiro do filme Deserto, em parceria com o cineasta Guilherme Weber. Lançado em 2017, é uma adaptação do romance Santa Maria do Circo, de David Toscana. Ele é autor de várias obras onde, para se chegar da realidade ao absurdo, basta virar a esquina. Não se trata de realismo mágico e sim de situações insolúveis onde os personagens não veem nada de fantástico naquilo que encontram, apenas tentam lidar com as dificuldades. Aceitam que a vida é absurda. De uma certa forma, é o mesmo que fazem muitos protagonistas de Ana Paula Maia. Em seus livros, nesse aspecto, há um parentesco com Kafka, afinal foi ele que nos mostrou que a realidade é absurda, e que o absurdo é real.

 

     

 

Na televisão ela também teve uma atuação. A série Desalma, de plataforma de streaming GloboPlay, foi criada e escrita por Maia. Foram duas temporadas em 2022, com um total de 20 episódios que tratam de acontecimentos dramáticos, mortes, desaparecimentos, aparições e magia negra. Também aí a morte faz parte da vida. Assim como na obra dos autores que Ana Paula Maia cita como maiores influências, Dostoievsky e Edgar Allan Poe. Em ambos, os protagonistas estão em contato constante com a morte, seja pelo medo que causa, seja pelo alívio que pode trazer.

O nome do protagonista Edgar Wilson, que aparece em vários romances de Ana Paula Maia, foi inspirado, segundo ela mesma, no conto William Wilson, de Poe. O conto narra o sofrimento de Wilson ao se deparar com seu duplo, que o persegue e tenta adverti-lo sempre para não cometer erros, manter-se no caminho reto. Tal é a tortura que, ao final, Wilson mata seu duplo, mas fica ainda mais infeliz.

 

 

Esse conto teve profundo impacto sobre alguns grandes autores, inclusive Nabokov e Paul Auster. Em Lolita, Humbert Humbert foge com a menina após a morte da mãe, viaja pelos Estados Unidos e fica sempre em hotéis à beira da estrada, em uma tentativa de controlar a garota e não chamar a atenção para si, o que poderia levá-lo à cadeia. No entanto, ela, Dolores, está em comunicação com Claire Quilty, dramaturgo, também pedófilo, em muitos aspectos um duplo de Humbert. Quando Lolita deixa Humbert, ele começa uma busca obsessiva por ela, e ao descobrir que foi Quilty que a levou, vai até a mansão do dramaturgo e o mata de forma muito teatral. Mesmo assim, Lolita recusa-se a voltar para ele; ele é preso e pouco depois, morre. Ou seja, desde William Wilson, matar seu duplo não traz felicidade. O jeito é conviver com ele.

 

 

A Trilogia de Nova York, de Paul Auster, é uma coleção de caixas chinesas de identidades, uma dentro da outra, dentro da outra... um desafio maravilhoso para o leitor. Entre todos os personagens, muitos dos quais são o mesmo, um deles é um escritor que usa o pseudônimo de William Wilson. Mais uma referência ao personagem de Poe, e não gratuita: a grande questão desse personagem é justamente aceitar a sua identidade. Talvez a geração selfie não tenha esse conflito: criam uma identidade falsa e não se preocupam mais com a verdadeira. Você está infeliz, tem poucos "seguidores"? Considera-se muito insignificante? Sem problema, basta fazer um selfie ao lado de uma celebridade famosa por ser celebridade, publicar em todas as redes, e resolvido o problema. Os likes virão, e logo logo você mesmo passará a acreditar que também é uma celebridade. Em vez de matar seu duplo, a geração selfie o cultiva obsessivamente.

Para Edgar Wilson, ao menos até sua presença neste romance, identidade não parece ser um conflito em sua vida. Ele sabe bem quem é e a que veio. Desde que surgiu, em 2009, em Entre rinhas de cachorros e porcos abatidos, sua trajetória é um círculo que parece se fechar em Enterre seus mortos. No primeiro livro ele é abatedor de porcos. Em Carvão animal, de 2011, trabalha em uma mina de carvão, que nada mais é do que o produto da decomposição de toneladas de plantas mortas há milhões de anos. O carvão vem depois da morte. Já em De gados e homens, lançado em 2013, trabalha em um abatedouro, como atordoador de gado. Lidar com a morte em suas várias formas foram as opções que lhe couberam, então essa será sua identidade. Não há mistério, glamour, repulsa. Ele desempenha muito bem seu trabalho, mas no fundo gostaria mesmo é de criar porcos. Iria preferir criar vida a facilitar a morte.

 

 

Finalmente, em Enterre seus mortos, Edgar Wilson recolhe cadáveres de animais mortos em acidentes nas estradas. O Edgar Wilson aqui não é mais o mesmo da sua primeira aparição. Provavelmente já se distanciou de William Wilson, amadureceu, tem consciência da passagem do tempo. A morte, agora, não é algo que só acontece às plantas, aos animais, aos outros, ela é pessoal. Ele continua a cumprir exemplarmente sua tarefa, mas vai além. Chama seu amigo Tomás para ajudá-lo. Tomás também tem a função de recolher cadáveres de animais. No entanto, faz mais do que isso: dá a extrema unção a todo morto ou moribundo que encontra, animal ou homem. Ele é padre, mas foi excomungado por razões que são esclarecidas ao longo do romance. Mesmo assim não se afastou da fé e do ritual. Quando Edgar Wilson pede ajuda a Tomás, sabe que esses animais irão receber mais do que apenas transporte. Como ele mesmo conta para Edgar,

- Eu tô há dez anos trabalhando nessas estradas - diz Tomás. - Desde que fui excomungado, não parei mais de recolher os animais mortos por essas estradas. Encontrei minha vocação.

Em outro momento, ao se depararem com um grave acidente, enquanto Edgar Wilson luta para tirar uma pessoa do carro em chamas, Tomás

...segura com cuidado a cabeça do motociclista estendido no chão. Coloca delicadamente a mão sobre o peito do homem [...] Tira do bolso o vidrinho com água benta, molha a ponta do dedo e faz o sinal da cruz na testa e na boca do homem [...] Ao menos não está sozinho. Tomás lhe dá algum conforto. Ninguém nasce só e não deveria morrer só.

Há mais um detalhe que revela a atitude humana de Edgar Wilson: não permite que os animais mortos fiquem expostos, mesmo sabendo qual será seu fim. Uma vez colocados na caminhonete que irá transportá-los, faz questão de cobrir os cadáveres. Em algumas religiões, como no judaísmo, assim que alguém morre, é coberto com um lençol e apenas as pessoas encarregadas de preparar o corpo para o enterro (em uma mortalha) é que irão vê-lo. O caixão é sempre fechado. Expor um cadáver é um desrespeito gravíssimo. Mesmo nas religiões que permitem ou até cultuam a visita ao cadáver, como no catolicismo, isso só é permitido depois que o morto é "preparado", ou seja, depois que recebe um tratamento que lhe dê as feições mais parecidas possíveis àquelas que tinha em vida. É quase um modo de evitar olhar a morte de frente. Wilson faz questão de dar aos cadáveres dos animais um último gesto de dignidade.

Aqui está o fechamento de um ciclo que começou com o trabalho de abatedor, passou a minerador de carvão das profundezas da terra, depois a atordoar gado prestes a ser morto, e agora recolhe cadáveres. O trabalho de abatedor só será completo se o animal morto for acompanhado nessa via até a última estação. Edgar Wilson vai de abatedor a guardião, mesmo que a morte sempre vença. Seu trabalho não é lutar contra a morte, é de resguardar aquilo que pode restar - a alma? - depois da batalha final.

 

 

Parte 3

Ana Paula Maia nasceu no Rio de Janeiro, é jovem, escritora premiada e grande leitora. Mesmo assim, dificilmente terá conhecido o florentino Dante Alighieri em pessoa, já que entre suas vidas passaram-se oito séculos. Mas os personagens da autora brasileira e do autor italiano não são barrados pelas fronteiras do tempo: conversam entre si, ainda que possivelmente nem mesmo seus autores tenham consciência disso. Dante, o protagonista do poema narrativo Divina Comédia, e Edgar Wilson, protagonista de Enterre seus mortos, compartilham suas árduas trajetórias na direção de alguma forma de salvação.

 

 

Na primeira parte da Divina Comédia, uma versão ficcional do próprio Dante atravessa os nove círculos concêntricos do Inferno, guiado pelo poeta romano Virgílio. Inferno é a região onde estão aqueles que rejeitaram os valores espirituais ao renderem-se a apetites bestiais, violência, fraude ou maldade, e por isso vivem em tortura infinita de vários tipos, dependendo da gravidade do pecado. Dante sente pena desses pecadores torturados, mas à medida que avança nas profundezas, pouco a pouco se dá conta que nada pode fazer para salvá-los. Entende a natureza do pecado. Ao sair do inferno, passa ao purgatório e depois chega ao paraíso, ou seja, chega a um lugar de descanso eterno, salva sua alma.  

Em Enterre seus mortos, Edgar Wilson recolhe cadáveres de animais mortos em acidentes nas estradas. Seu trabalho é levá-los a um galpão onde esses corpos são triturados. São jogados dentro de um enorme triturador, e em seguida, 

...do outro lado, por um cano largo, a massa condensada vai sendo despejada numa espécie de reservatório para ser utilizada na preparação de compostagem usada na fertilização do solo.

Do solo viemos, ao solo retornamos. Edgar Wilson nada pode fazer para salvar esses animais. As conversas entre Edgar Wilson e Tomás são quase monossilábicas, contidas. Tratam da vida e da morte (e do quê seria?), mas muito mais da morte do que da vida. Não existe hierarquia entre eles, Tomás é um guia espiritual porque já viu a maldade de perto e sabe como ficar longe dela. Como Virgílio acompanha Dante pelo inferno até a saída, Tomás acompanha Edgar Wilson e promete que fará o último desejo do outro, quando chegar a hora.

 


Gustave Doré. Inferno de Dante Alighieri

 

Em Inferno, Virgílio vive no Limbo, isto é, no primeiro círculo do inferno. Está lá porque nasceu antes do nascimento de Jesus, portanto é um pagão virtuoso que não teve a oportunidade de aceitar a Cristandade. Limbo é considerado a região mais benigna do inferno, por isso Virgílio recebe permissão especial para guiar Dante pelas outras regiões. Pode-se dizer que Tomás também vive no Limbo, em Enterre seus mortos. Seu pecado é maior do que o de Virgílio, mas não foi condenado a tortura eterna. O próprio fato de continuar a dar a extrema unção aos moribundos é prova de que não perdeu sua fé. Por isso ele pode exercer esse papel de guia - ou consolador - espiritual de Edgar Wilson.

Um último paralelo une as duas obras: cada episódio ocorre em um espaço numerado e separado dos outros. Em Inferno, não há ligação entre um círculo e outro, não é possível aos pecadores movimentarem-se para cima ou para baixo. Onde estão, ficarão eternamente. Nas estradas onde trabalham Edgar Wilson e Tomás, cada acidente ocorre em um quilômetro específico, ao qual eles se dirigem após receber uma mensagem pelo rádio. Cada cena é completamente separada das outras. Assim como Virgílio e Dante, os dois funcionários podem movimentar-se entre elas, mas os mortos que ali estão não sairão mais, nunca mais. Seus corpos serão recolhidos e receberão uma nova missão, seja de transformar-se em adubo, seja de fornecer joias a ladrões de cadáveres, sejam indignidades inimagináveis. Não importa como foram suas vidas, importa o que será deles agora na morte. Um dos trechos mais dramáticos do romance de Ana Paula Maia é a tentativa de Edgar Wilson de entregar dois cadáveres humanos a alguém que possa dar-lhes um fim digno. O único medo de Edgar Wilson é que após sua morte, seu próprio corpo seja abandonado para ser devorado pelos animais. Apesar de arriscar seu emprego por desobedecer a regra de apenas transportar cadáveres de animais, ao encontrar esses dois, é movido por um senso de missão, faz por eles o que quer que seja feito por ele. Amarás ao teu próximo como a ti mesmo, a regra central do judaísmo, surge em Leviticus 19:18, portanto há mais de 3000 anos, ainda move corações, mesmo se só na ficção.

 


Parte 4

Confeccionar quatro cabeças, duas laringes, quatro estômagos, três corações, quatro pulmões, dois jejuno-íleo, três bexigas, dois intestinos grossos, quatro testículos, dois úteros e músculos.

Com uma frase destas, Enterre seus mortos tinha de ser o vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura. E foi. Enterre seus mortos foi o sétimo romance de Ana Paula Maia, o segundo a lhe dar o Prêmio São Paulo de Literatura. O fato deste livro sair vencedor diz algo positivo, importante sobre os jurados, porque além de valorizarem a evidente qualidade do texto, foram capazes de premiar sua originalidade. Ele é original, de uma forma que pode ser prejudicial a si próprio: não se detém em questões ideológicas, nem em um suposto lugar de fala. Suas questões são atemporais; personagens não são amostras estatísticas da população (negros, brancos, mulheres, homens, etc.). O universo do trabalho invisível onde esses personagens vivem é de força bruta, não há espaço para mulheres, e a questão étnica ou racial não faz diferença alguma. Portanto a vasta maioria dos personagens é masculina, com exceção daqueles que representam uma posição que provavelmente seria, no mundo real, ocupada por uma mulher.  Em tempos em que tudo exige definições identitárias e políticas, onde só há espaço para o bom e o mau e nada entre eles, é louvável a integridade literária demonstrada pela escolha do vencedor. Os personagens de Maia não são bons nem maus, não representam uma classe social e não se prestam a sociologismos de mesa de botecos pretensamente humildes e populares (mas na verdade, caros e seletivos). Como diz a autora, o que lhe interessa 

...É o cara que não é bandido, não é marginal, não mora na favela. Mora em um lugar mais simples, mais humilde, que não chega a ser uma favela. Ela não está sob regime de tráfico de drogas. Não é, na realidade, uma área ou uma zona pobre, pode ser uma área mais operária, uma área de subúrbio. Esse subúrbio pode existir em qualquer lugar.

A narração é feita em terceira pessoa, mas acompanha de perto Edgar Wilson. Os diálogos são raros e concisos, não se fala de amenidades. A atmosfera é desoladora: o silêncio impera, está sempre frio demais ou quente demais, chove muito, água e pedras.

O sol, mesmo entre nuvens, deixa enfadados as aves e os répteis, que evitam cruzar a estrada quente. O capim amarelento e esmorecido contorna o caminho que segue. Tudo parece morto ou quase morto debaixo do sol. 

São poucos personagens, como seria de se esperar em um ambiente assim. Só existem as pessoas que participam diretamente da história, mas mesmo elas são raras. Edgar Wilson e Tomás parecem não ter família, amigos ou qualquer vínculo fora do mundo do trabalho. Nete, a moça que avisa sobre acidentes na estrada, consegue, nessas curtas interações, transmitir uma vulnerabilidade, uma tênue ligação de humanidade que revela sua verdadeira potência no momento em que é necessária. É como uma longa corda que mantém o astronauta seguro quando sai da nave. Ela não deixa Edgar Wilson se perder enquanto dirige sua caminhonete neste inferno. Em uma das vezes que Nete comunica uma ocorrência a Edgar, por exemplo, fica clara a sua saúde frágil e a reação de Edgar Wilson mostra que ele ao menos está ciente disto:

A mulher do outro lado do radiocomunicador espirra e assoa o nariz antes de responder um o.k. fanhoso.

-Ainda resfriada, Nete?

- Preciso me mudar. A poluição da pedreira tá acabando comigo. Vou drenar os pulmões de novo. - Ela desliga ao concluir.

Os homens brutos que habitam o mundo onde Enterre seus mortos se desenrola são solitários, mas não revoltados; francos, mas não cruéis. Alguns são absolutamente corretos dentro de sua ética pessoal, outros cometem delitos que justificam pela dureza da vida, mas nenhum deles está tentando destruir o "sistema", estão apenas vivendo com ele. Ana Paula Maia não faz juízo de valor, é o leitor que pode, caso queira, posar de juiz, mas terá dificuldade, porque a linha que separa vilões e mocinhos é borrada. A autora diz em entrevistas que se interessa pelas pessoas que não são contempladas pela literatura em geral, as pessoas que fazem o trabalho sujo e passam invisíveis na nossa frente. Muito mais do que mostrar se esse trabalho é bom ou ruim, ela quer mostrar que existe alguém que faz esse trabalho. Na verdade, só sobreviver, sair da cama cada dia para enfrentar essa aridez, já é prova de que é a mente e o coração que estão no controle, porque se dependesse apenas do corpo... Em um posto de gasolina quase abandonado, uma conversa entre Edgar e o proprietário revela o teor dessa luta:

- Tem dias que eu fico aqui sentado, bem ali naquela cadeira velha de balanço com aquele vira-lata preguiçoso perto de mim. Está vendo aquele cata-vento ali? [...] Tem dia que ele para durante uma hora ou até mais. Nada se move. Até mesmo o cachorro parece não respirar de tão quieto que fica. [...] E é aí que eu digo pro senhor: fico meio que apavorado.

- Por quê?

- Porque eu rezo. E rezo de novo.

O homem cai em um silencio repentino e olha para os lados. [...] - E eu tenho certeza de que nada nem ninguém me escuta. Deus ou o diabo, parece que nenhum dos dois está mais aqui.

Edgar Wilson não ri, não duvida. Não continua nessa vida, nesse lugar, porque não crê em Deus ou no diabo. Ele continua porque crê.

 

(texto publicado no jornal/site "Não É Imprensa" - NEIM) 


Vivian Schlesinger


Vivian Schlesinger é mediadora de clubes de leitura, ministra oficinas de escrita e faz a curadoria de feiras literárias com autores brasileiros e internacionais. É poeta (Papaya na madrugada, 2011, Dobra Editorial) e tradutora. Seus poemas, premiados no Brasil e no exterior, têm sido publicados em diversas antologias. Tem colaborado em livros e periódicos acadêmicos com ensaios sobre literatura comparada. Foi jurada de concursos literários, tais como o Jabuti, é colunista de jornais de literatura, como o "Jornal Rascunho", "Não É Imprensa" e outros. É maratonista e avó. 

← Jardim Alheio

Fale com noosfera

Comentários, sugestões, propostas de colaboração: escreva pra gente.

redes sociais