
E o convite foi para falar sobre teatro. Mas nós que fazemos teatro e pensamos teatro desde sempre não conseguimos separá-lo do restante das nossas vidas. Assim, hoje vou falar aqui de um processo de feitura de uma peça infantil, À Procura de João, que levou dez anos e da minha doença cerebral que já leva muitos meses. O que eles têm em comum? O fato de que são ações que compõem uma vida: a minha. E são um exemplo real de como o teatro sempre dá um jeito de se imiscuir na nossa vida cotidiana e ressignificar tudo. Todos os dias. E a vida como um todo.
À procura de João é uma peça infanto—juvenil que fala de um tema impossível: um menino de oito anos que dá entrada em um hospital com dor de cabeça e dali só sai mais de 400 dias depois, sem a capacidade de falar, andar ou se comunicar com mais ninguém. Isso aconteceu com o filho de uma conhecida, que estudou comigo e morava no mesmo prédio da minha infância. Fui ao hospital e saí de lá com a certeza de que aquilo, aquela tristeza toda, daria uma peça infantil linda, que ressignificaria tudo e daria vazão para o amor que presenciei naquele quarto.

Levou dez anos para que ganhássemos um edital público: o Prêmio Zé Renato, da prefeitura de São Paulo, para contar essa história. Meu terceiro infantil, o primeiro O Armário Mágico, era sobre uma menina com leucemia, o segundo O Menino que não sabia chorar, em parceria com Luiza Pannunzio, era sobre um menino com fissura lábio palatina. E essas histórias acabaram gerando uma companhia teatral: a cia das histórias que não se contam. Mas eu as escrevo e nós as contamos em cima de um palco. Assim que soube da alegria de ganharmos o prêmio, tive o diagnóstico de algo no cérebro, sem que soubessem ainda o quê. De lá para cá fiz uma operação para tirar um possível tumor. Não era. Sigo na busca da cura, agora com o diagnóstico de um cisto primário que ninguém sabe o porquê se tornou sintomático, me causando tonturas, o olho meio estranho e formigamento do lado direito do corpo, tudo 24 horas por dia . Tomo remédios e torço pela cura desses sintomas chatos, que me impedem de viver plenamente. Mas é tudo muito mais brando do que poderia ser. Vou aprendendo a agradecer e a crer que tudo logo vai passar.

Os dois “eventos” na minha vida longe de estarem unidos apenas por falarem de doenças, estão unidos porque ressignificam os dias, a vida, minha história, minhas relações, minha família. Enquanto eu escrevia esta coluna, João seguia para um novo teatro. O Paulo Eiró. E no palco vemos ele e sua irmã Carol buscando os outros Joões das histórias, João e o Pé de Feijão, João e Maria João Grilo e João Pestana, para que os ajudem a achar alguma cura para a sua incapacidade de se comunicar com qualquer pessoa que não seja sua irmã. A única que o ouve, que o vê brincando, andando e dançando. Para isso transformam sua cama, onde ele passa todos os seus dias, em avião, em navio, em um portal que os leva para todas as suas aventuras. Em casa sigo buscando uma cura, crendo, tomando remédios, deixando cada dia passar para que os outros venham e me tragam a alegria de me sentir bem novamente após quase um ano.

João não se cura, mas percebe que a aventura está na travessia, na relação com a irmã, na busca. O palco do Teatro Arthur Azevedo nos acolheu assim como, posteriormente, o do Paulo Eiró. Por meio de um edital público. Tivemos um público incrível, e retornos muito potentes, inclusive da família do João. Pude ir alguns dias, outros não. Sigo, como João, entendendo que a vida se faz vivendo. Mas como ele também acreditando na minha cura. Muita gente segue comigo e a escrita e a leitura de teatro são meus grandes aliados.

O João, espero, voltará muitas vezes aos palcos. Talvez eu consiga estar lá, talvez não. A peça acontecerá de qualquer modo. Minhas palavras serão ditas em cima desse palco lindo. É isso, talvez o que quero dizer aqui nessa primeira coluna: o teatro (e avida) continua. Apesar de tudo. A arte da presença, mas que segue dentro de cada um de nós diariamente, mesmo que muito nem se deem conta disso. Como diz o grande dramaturgo e diretor David Mamet: “É da natureza humana dramatizar”. Dramatizemos!
Paula Autran
Paula Autran é pós doutora em história da cultura na FFLCH/USP, doutora e mestre em artes cênicas pela ECA/USP. Jornalista, dramaturga, escritora e professora de dramaturgia. Tem dez peças encenadas, entre elas O Armário Mágico, com o qual concorreu à autora revelação pelo prêmio FEMSA. Foi integrante do círculo de dramaturgia, do CPT, de Antunes Filho e do workshop do Royal Court Theatre. Tem treze livros publicados, entre eles Teoria e Prática do Seminário de Dramaturgia do Teatro de Arena, pela Dobra Editorial. Instagram: @paula.autran.
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