
Fábio Mandingo é um escritor refinado. Essa afirmação pode soar estranha para quem conhece a literatura e o estilo do escritor, já que seu texto é produzido com intenso diálogo com o circuito comunicativo da rua e sob o registro popular da língua, sobretudo, em suas variações periféricas. Esse estranhamento, certamente, se deve ao fato de a palavra ‘refinado’ estar muito associada ao ‘sofisticado’, que, por sua vez, carrega, em sua utilização tradicional no campo da arte, uma ligação com os hábitos de consumo das elites coloniais/burguesas e ser sempre conectada às tradições de ascendência europeia. O termo, porém, guarda uma etimologia ligada aos sofistas remetendo a uma ideia de conhecimento, como também à falsificação e superficialidade, passando posteriormente a designar requinte e elegância, como habitus das classes dirigentes, tidas como ricas e cultas. Por isso, Silvio Roberto Oliveira defende que a leitura e análise das complexidades estéticas de obras negras é melhor explicada pela ideia de refinamento que de sofisticação, pois, mesmo sendo ambas categorias perigosas, devido a sua função de produzir distinções superficiais e classistas no campo da arte, a segunda é mais nociva devido a suas camadas discursivas expressas em sua herança etimológica.
Assim, no senso comum, refinados seriam os saberes, as técnicas e as expressões da cultura hegemônica, ligadas comumente à elite econômica e aos grupos étnicos de ascendência branca e europeia, o que é obviamente o contrário da literatura de Fábio, centrada na rua, no repertório cultural negro, e na ligação histórica, epistêmica e política com a África.

É desnecessário nos determos na questão do quanto há de violência nessa privatização do termo pelas elites brancas e suas tradições. No fundo, a estranheza parte da tese defendida por elas, afirmando uma suposta simplicidade das produções negras, que remete ao processo de colonização e sua consequente colonialidade do saber dele derivada, culminando na desumanização africana, já que nessas perspectivas, seus povos não tinham história, cultura e arte. Ou seja, eram primitivos, e por consequência não haviam alcançado a expressão máxima da sensibilidade que é manifestar-se através das formas criativas de linguagem. Mesmo quando a arte africana adentra o cenário ocidental, no contexto das vanguardas históricas, ela aparece colada à uma noção pejorativa de artesanato e/ou ao epiteto de ‘primitiva’. Essa simplicidade, imputada a uma série de produções textuais negras e periféricas, redunda em negação da profundidade e complexidade de nossas produções. Isso se traduz na crítica literária brasileira, em leituras que privilegiam a sociologização e o denuncismo como atributos centrais e valorativos do texto negro, margeando suas proposições estéticas, éticas e epistêmicas.
Refinado seria, portanto, para a crítica hegemônica, atributo daquilo que repete os termos da tradição, que dialoga com ela e duplica suas técnicas de composição ou, como se tornou mais corriqueiro na modernidade, o refinamento seria característica daquela produção que suplementa a arte lhe atribuindo um dado novo, ou seja, continuando a evolução das formas estéticas. Não são esses os termos a que nos referimos quando dizemos que Fábio Mandingo tem um texto refinado, não se trata de duplicar uma tradição, nem de acrescentar a ela um dado novo, mas ao contrário de romper com ela, ou melhor, se colocar fora dela. O refinado é aqui sinônimo de complexo: bem realizado esteticamente, propositivo politicamente, múltiplo epistemicamente. Nos referimos mais diretamente à manipulação estética de atributos históricos e culturais da população negra.
Assim, é seu livro: A princesa Mahin – uma história quilombola, publicado pela Editora Ciclo Contínuo. Nessa obra há um desvio, mesmo que mínimo, em relação aos livros anteriores de Mandingo, pois há um investimento mais direto em uma dimensão historiográfica da experiência negra, no Brasil. Durante a narrativa vemos a história de Sankara, um jovem negro de classe média relativamente desinteressado sobre as questões raciais. Isso ocorre porque o personagem não tem consciência histórica, embora seus pais sejam politizados e participativos. Há uma leve sugestão de que a ascensão social pode funcionar como apagador da consciência étnica em jovens que já cresceram em um ambiente de alguma, embora tímida, inserção econômica para a comunidade negra. Distanciado, subjetivamente, no tempo e no espaço social, daquelas lutas que ele imputa consciente ou inconscientemente à geração de seus pais, não pode entender que está imerso, mesmo à sua revelia, em um contexto de guerra racial que extrapola sua classe. Não compreende sua vida imersa no circuito da memória de uma experiência comunitária negra e com isso se afasta da militância de seus pais, e, sobretudo, de sua identidade.
Nesse contexto, em um passeio escolar à uma região na qual existia um importante quilombo, Sankara mergulha em uma viagem transistórica que, a partir da invenção narrativa do autor, materializa, de forma certeira na mediação que a ancestralidade faz entre indivíduo, território e comunidade, entrelaçando-os no tempo e no espaço, a memória coletiva negra, no corpo e na vida do personagem. Aqui, Mandingo põe em cena com enorme desenvoltura a complexa dimensão temporal das matrizes culturais negro-africanas, chamada por Leda Maria Martins de ‘tempo espiralar’, incorporando-a a estrutura narrativa do enredo. Essa operação textual desenha para o leitor a continuidade das lutas negras, que se estendem das rebeliões dxs escravizadxs às reuniões dos movimentos negros no século XXI.
Essa escolha de Mandingo tem influência decisiva na forma como a cidade aparece na narrativa. Como em seus livros anteriores, a cidade está lá: Engenho Velho, São Bartolomeu, Pirajá etc., mas diferente de Salvador Negro Rancor, por exemplo, os personagens não percorrem ruas, descem ladeiras e vielas, enquanto pensam, falam, capoeiram e amam. Em A princesa Mahin – uma história quilombola, a cidade aparece menos móvel, estática em certas horas. Mas isso não significa que os personagens não estejam em movimento; ao contrário, é que nesse livro Mandingo trocou a ênfase do movimento dos personagens no espaço por sua mobilidade no tempo. A própria cidade se movimenta à medida que o tempo se move na narrativa, dando aparição a esta ou aquela região. Então, aquilo que parece uma acomodação revela-se uma intensificação, não são mais apenas os personagens que se movimentam no espaço, mas o próprio espaço que se movimenta no tempo.
Nesse texto de Mandingo, a epistemologia negra, centrada na ancestralidade e no território, não aparece como adorno, não enfeita a narrativa, não é penduricalho retórico, antes ela a estrutura. Seja na dimensão comunitária da política, na reordenação temporal do enredo, ou no manejo estético da língua, é o repertório cultural negro, manipulado de forma potente e refinada por Fábio Mandigo, que nos informa sobre o que fomos e somos, nos convidando a assumir as rédeas do nosso devir.
O refinamento aqui acontece por um manejo técnico, criativo e inventivo do repertório cultural negro, no qual a complexidade conferida às dimensões espaço-temporais do enredo, embaralhando os tempos e acavalando os espaços, por isso não pode ser explicado, na teoria e crítica literária, como ficção científica ou literatura fantástica, por exemplo, como já nos chamou a atenção Henrique Freitas. O leitor nem se sentirá à vontade com essa conjectura ao longo do livro, pois não há brecha narrativa para isso. Ali está posto, como nos ensina Muniz Sodré, o real da cultura negra, e é com ele que o narrador trabalha, alinha e desalinha o tempo tecendo a memória coletiva da comunidade e inserindo Sankara em uma luta que, embora tenha começado antes de seu nascimento, não começou antes dele, pois, de certa forma, ele mesmo começou a ser antes de ter sido, como busca nos informar a noção de ubuntu, que vai se desdobrar e se popularizar nos estudos sobre literatura negra na categoria de ancestralidade. É ela que vai coordenar o processo de consciência política, pertencimento étnico e participação comunitária no protagonista, nos soprando baixinho a lição de que o ancestral é aquele que continua a luta.
Jorge Augusto
Jorge Augusto é poeta e professor, soteropolitano do bairro da liberdade. Doutor em Literatura e Cultura e docente da UESB e no PPGLITCULT, na UFBA. É autor dos livros: Contemporaneidades periféricas (org), O mapa de Casa, Muvuca e Modernismo Negro, com o qual foi premiado com Jabuti Acadêmico, 2025. Tem diversos textos, poemas e entrevistas publicados em jornais e revistas e colabora como editor na Editora Organismo/Segundo Selo, coordenando as coleções Na Encruza, Contemporaneidades e a revista de Literatura Brasileira Organismo.
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