coluna

Um semiólogo na Noosfera

Antonio Vicente Pietroforte

Melancia

 

 

Minha personagem favorita da Turma da Mônica sempre foi a Magali por dois motivos: o vestido amarelo e a melancia. Minha cor preferida é o amarelo, nunca mudei de opinião sobre isso... embora prefira mamão, a melancia é maior, suntuosa, uma melancia se impõe... recentemente, vi uma delas numa fotografia de Eric Kroll. Na imagem, uma moça nua, ajoelhada sobre a mesa, saboreia um quarto da fruta com os lábios vaginais; ela é focalizada de costas, mas com o rosto virado sobre o ombro esquerdo, olhando em direção ao fotógrafo e para nós. Suas mãos pousam nos quadris; ela expõe a planta dos pés e, entre eles e as pernas, eis a melancia, feito uma pirâmide avermelhada. Seus pés descalços, enfocados assim, assemelham-se a dois pontos de interrogação, entre os quais figura a fruta... como ela sente, isso aguça. 

Quanto à língua, dizem que o gosto depende de quem vive dentro de nós. Não me refiro às circunstâncias... penso nos fungos, o reino dos cogumelos; nas bactérias, já modificadas para produzir psilocibina; nos vírus, a seus modos, um elo perdido. E nesse ínterim, quando a copa se confunde com a gruta, recordo as musas da juventude, encarnadas, então, em atrizes, cantoras e personagens de histórias em quadrinhos... entre elas, como na faixa celeste, figuram Helena Ignez – nos filmes do Rogério Sganzerla –, Adele Fátima – em Histórias que nossas babás não contavam –, Claudete Joubert – na capa da trilha sonora do filme A filha do padre –, Sônia Braga – no papel de Gabriela –, Gal Costa – quando jovem –, Valentina, Blanche Épiphanie, Paulette e Bionda – as quatro últimas, quase sempre –, Daisy Mae Scraggs, Moonbeam McSwine e Mara – constantemente –.

Neste momento, acendo a bomba... isso torna a inspiração algo concreto e específico; portão de ferro, cadeado de madeira... no filme exibido na minha cabeça, uma daquelas damas, descalça e de vestido amarelo, também acende, senhora do meu desejo. No meio da brasa, a semente estala, feito clave de rumba, click do meu Zippo dourado, osso do pescoço; na tela da mente – mãos à obra – exibe-se essa fita... na boca, vem a calhar uma melancia para aliviar essa fome.  



 

 


Antonio Vicente Pietroforte


Antonio Vicente Seraphim Pietroforte é professor titular de Semiótica na FFLCH-USP. Na área acadêmica, escreveu 10 livros de ensaios semióticos; na área literária, compôs 1 livro de ensaios, 3 romances, 2 livros de contos, 12 livros de poesia e o roteiro de 2 novelas gráficas.

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