
Aquele velho bar em que um grupo de amigos sempre se encontrava anos atrás, pouco tinha mudado. Algumas reformas no banheiro (que eram mais que necessárias), mesas mais firmes e um balcão pintado com uma cor mais escura (talvez para disfarçar melhor a sujeira).
E na mesma mesa de sempre, Sidney estava lá e o pedido era sempre o mesmo - uma dose de cachaça mineira pura e uma caneca de metal com cerveja de garrafa de 600 ml. Sidney abominava as modernidades de “long neck” ou "lata". Para ele, “cerveja tem que ser na garrafa grande pois é para compartilhar com o amigo".
Como sempre, era o primeiro da turma a chegar, por isso conseguia sempre aquela mesa que tinha uma vista privilegiada. Conseguia ver quem entrava no bar e a maior parte das mesas, mesmo não ficando muito no fundo, perto da chapa onde tinha o incômodo da fumaça ou do outro lado, em que havia o entra e sai dos banheiros.
Mesa para quatro, pois a turma variava de quatro a seis - quando isso acontecia, dois ficavam em cadeiras extras na ponta da mesa. Nos tempos idos, era a região dos fumantes, facilitando os da turma que não abriam mão da dupla nicotina-alcatrão. Mas os tempos mudaram, fumantes banidos para o lado de fora, e os viciados que se retirem para fora do boteco para usufruir da fumaça. Isso nunca incomodou Sidney que durante um tempo, só para fazer charme, tragava um bom charuto cubano, mas o geriatra o desaconselhou por motivos de saúde. Fez uma negociação: “Largo o charuto, mas o boteco com os amigos jamais". Contrariado, o homem de jaleco branco assentiu, mas não deixando de receitar as drogas de controle de pressão e diabetes.
Eram quase 20 horas. Hora que a turma começava a chegar, O garçom, o mesmo, já com os cabelos grisalhos, chegou perto da mesa e o cumprimentou. Pôs a mão no ombro com um olhar misto de ternura e tristeza. “O nosso time está uma bosta, não?” perguntou Sidney conformado com a decadência de uma das suas paixões futebolísticas que outrora só lhe dava alegrias. Futebol virou um grande negócio, caras que ficam na mesma equipe por no máximo um ou dois anos e partem para o estrangeiro. Sequer conseguia escalar o seu time de cor, coisa que quando tinha idade do seu neto fazia sem titubear.
Já tinha terminado a primeira garrafa, pediu a segunda e o cardápio. O garçom sugeriu meia porção do frango a passarinho - uma inteira iria esfriar pois não se sabe se o restante da turma chegaria logo. Já eram 20h30, a galera estava atrasada, disse Sidney. O garçom olhou-o novamente com ternura e disse, “é assim mesmo".
Chega a segunda garrafa, ele enche o copo, a garganta está aquecida pela cachaça. A cerveja desce deliciosamente, o contraste é indescritível. Ele olha as mesas cheias com turmas de jovens. Muitos deles sequer conversam uns com os outros, ficam mais olhando as telinhas dos seus smartphones. O barulho era bem diferente do que sua turma costuma fazer. Sequer consegue decodificar o assunto que rolava nas mesas. Política? Futebol? Cinema? Televisão? Marca de bebidas? Viagens?
Hora do primeiro xixi. Ao se levantar, sente uma leve fisgada na perna e lembra que naquela manhã, a personal trainer exagerou nos exercícios da academia. Passa pelas mesas cheias de gente e vai até o banheiro que está ocupado. Na idade que está, com a próstata gigante, a bexiga não segura muito e isto o preocupa. Mas parece que o usuário do banheiro ouviu os seus pensamentos e saiu logo. Entra no único reservado que tem do boteco e se alivia.
Esperava que ao voltar à mesa, alguém da turma teria chego. Mas a mesa continua lá vazia, só com a garrafa de cerveja, a sua caneca e a meia porção que tinha vindo. Algumas pessoas o olham com um misto de curiosidade mas sem muito interesse e logo se voltam para as suas existências. Não sabe decifrar se é respeito à privacidade ou mesmo desinteresse, que é comum nos dias de hoje. Aquele mesmo que percebe quando tem um morador de rua grunhindo de fome na calçada e as pessoas passam correndo para não perderem os seus compromissos - ou ainda olhando as telas dos seus smartphones.
Como um jurássico, retira um pocketbook do bolso do seu casaco e começa a folheá-lo. Um livro de contos policiais de Dashiell Hammett, aquele mesmo que escreveu o famoso O Falcão Maltês que foi adaptado para o cinema em uma película que teve como protagonista o Humphrey Boggart, que ele achava um tremendo canastrão mas virou galã (uma ex-namorada sua suspirava sempre quando assistia mais de dez vezes o Casablanca).
O livro de Hammet tinha sido presente de uma ex-namorada de Sidney que descobriu a paixão dele por histórias de detetive. E Hammet tinha uma escrita recheada de objetividade típica de jornalista, a ponto dos protagonistas sequer terem nome, apenas eram da Agência de Detetives Continental, como repórteres antigamente assinavam apenas “Da redação".
Levanta para o segundo xixi, por sorte o banheiro estava livre. Volta para a mesa.
Já estava comendo o último pedaço da meia porção, e era já o último copo de cerveja. Passava das 21h30 e ninguém chegava. O silêncio da sua mesa não diferia muito das conversas das outras mesas, mas com o barulho que sua turma fazia em tempos idos. Quem venceria o campeonato? Quem tinha o melhor traço dos desenhistas de histórias em quadrinhos, Alex Raymond ou Bob Kane? Afinal, o caçador de andróides do Blade Runner era ou não também um replicante? Marxismo ou pós-estruturalismo?
O garçom velho vem com a conta e fala, batendo no ombro: "vai para casa, seu Sidney, está ficando tarde, quer que eu chame um táxi?” Ele olha no fundo dos olhos do garçom como se pedisse ajuda para algo que não sabia dizer ou não encontrou palavras para expressar. Paga deixando a gorjeta acima dos 10% regulamentares e vai andando rápido, talvez para que ninguém veja uma lágrima escorrendo no seu olho esquerdo.
Dennis de Oliveira
Dennis de Oliveira é jornalista, professor titular da Escola de Comunicações e Artes da USP, autor do livro Cultura Totalitária: a sociabilidade humana em questão (2025), coordenador do Celacc (Centro de Estudos Latino-Americanos sobre Cultura e Comunicação). Instagram: @deoliveiradennis Site: http://dennisoliveira.info
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