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Cinesonho

Marcelo Ariel

Sobre filmes e outros sonhos acordados

 

 

O filme MICHAEL parte 1 de Antoine Fuqua é mais uma espécie de preâmbulo para um acerto de contas e acerto das contas de sua familia e dos responsáveis pela administração de seu legado do que uma obra cinematográfica no grande sentido do termo,  o cinema americano vive uma espécie de apagão criativo e se recicla de forma quase pornográfica desde 2020, as exceções são os filmes estrangeiros, o acontecimento estético como sempre vêm de fora e se intensifica ou não na vida interior da cultura, retornando ao fenômeno MICHAEL parte 1, o caminho para a decifração da esfinge com voz de sereia Michael  Jackson não passa por este filme, um dos atalhos possíveis para ao menos ouvirmos a voz da esfinge para além de seu canto de sereia é o documentário MICHAEL JACKSON’ S JOURNEY FROM MOTOWN TO OFF THE WALL de Spike Lee de 2016 que pode ser visto com facilidade no Youtube. Imagino como seria MICHAEL parte 1  se fosse dirigido por Spike Lee com argumento e roteiro de Colson Withehead, os mundos da arte e da política se entrelaçam em torno de um enorme ‘ E se? ‘ e o que temos são as imaginações arrasadas por inúmeras possibilidades jamais consideradas em ambos os campos. Por outro lado, o extraordinariamente bem sucedido filme de Fuqua tem, teve e terá um papel fundamental da desdemonização de um artista negro genial, penso que algo assim precisa ser ressaltado e repetido com mais profundidade psicológica em obras cinematográficas que abordem as questões da vida de outros  negros igualmente geniais como Miles Davis e Pelé, a fama em vida de pessoas complexas e virtuoses e dotadas de algum grau inusitado de inovação e diferença radical não é apenas uma soma de entendimentos enviesados, é também uma espécie de maldição. Michael Jackson foi excluído em vida e demonizado por causa de seus posicionamentos políticos e em especial seu apoio á causa palestina e pagou um altíssimo preço por sua coragem, o filme de 2026 passa ao largo de tudo isso? Digamos que ele resvala superficialmente em uma cena e outra na inteligentíssima sensibilidade que Michael Jackson possuía para as ontologias da rua, digamos assim, o artista é uma antena da raça ( Pound) , principalmente se ele for preto. MICHAEL parte de 1 é um filme superficial e necessário que redimiu a figura extraordinária de Michael Jackson para as novas e futuras gerações, será obviamente superado por uma sequência que já deve estar em curso ou por um documentário realmente abrangente que poderá ser feito na esteira do seu gigantesco sucesso e  futuros prêmios da indústria dos banqueiros do cinema norte americano e etcetera. Me pergunto se o sionismo que predomina na sociedade norteamericana e em  Hellowood este filme e seu sucesso não funcionam como o louvor cínico do carrasco, exaltando a grandiosidade daquele que ela assassinou. 

 

OS 90 ANOS DE WOODY ALLEN

 

Woody Allen cancelado em vida como Michael Jackson chega aos 90 anos com sua imagem um pouco diluída pela fumaça de um charuto cubano que ele fuma na varanda de seu apartamento em Paris, em KING LEAR de Jean Luc Godard ele interpreta um cineasta louco que imagina enfrentar a máfia da arte, grande metáfora dos mecanismos  internos de Holywood, indústria mítico-mafiosa que carrega  impunemente um anagrama de seu nome. Aos 90 anos Woody Allen prefere reler pela terceira vez The Posthumous Memoirs of Brás Cubas desse maravilhoso Mechado d’Éssis  , romance que ele quase veio filmar em Copacabana, algo que seria melhor para a cultura universal brasileira do que todas as recentes edições do Rock In Rio juntas. Woody Allen é bem mais do que “ O fracassado que deu certo” da frase equivocada do Millôr, é um artista que conseguiu transformar  a autoironia em lirismo e com os cancelamentos que choveram como espadas de Dâmocles sobre sua cabeça nos últimos anos, ele está longe de ser alguém que deu certo em uma sociedade doente como a dos USA ( include Brazil )  que não deu incomensurável ênfase para seu julgamento e demonização e nenhuma para sua absolvição, aliás Ruy Castro diz em uma das orelhas da AUTOBIOGRAFIA dele que saiu pela Editora Globo que  ‘ ele dispensa nossa absolvição’. Os extintos e ainda impressos cadernos de cultura deram e dão mais importância  para a suposta ficha criminal dos artistas do que para os significados de suas obras, puro lixo de uma sociedade que caminha ela mesma para o surto e expansão até o infinito de sua estupidez, qualquer rara criatura que tenha lido Merleau Ponty sabe que separar um artista de sua obra é uma enorme tolice, Woody Allen é seus filmes e é isso que o longo tempo da arte irá destacar e escrever nos céus da arte. Woody Allen no futuro será comparado a Tcheckov e não a Hitler!?! Aliás o principal desafio de nosso tempo é cancelar Hitler e não cineastas! Imagino o riso do velhíssimo Sr. Allen ao ler em inglês esta passagem do  livro do Machado que narra o Delírio de Brás Cubas:  

“ Cahiu do ar? destacou-se da terra? não sei; sei que um vulto immenso, uma figura de mulher me appareceu então, fitando-me uns olhos rutilantes como o sol. Tudo nessa figura tinha a vastidão das fórmas selvaticas, e tudo escapava á comprehensão do olhar humano, porque os contornos perdiam-se no ambiente, e o que parecia espesso era muita vez diaphano. Estupefacto, não disse nada, não cheguei sequer a soltar um grito; mas, ao cabo de algum tempo, que foi breve, perguntei quem era e como se chamava: curiosidade de delirio. 

 

— Chama-me Natureza ou Pandora; sou tua mãe e tua inimiga. 

Ao ouvir esta ultima palavra, recuei um pouco, tomado de susto. A figura soltou uma gargalhada, que produziu em torno de nós o effeito de um tufão; as plantas torceram-se e um longo gemido quebrou a mudez das cousas externas. 

— Não te assustes, disse ella, minha inimizade não mata; é sobretudo pela vida que se affirma. Vives; não quero outro flagello. 

— Vivo? perguntei eu, enterrando as unhas nas mãos, como para certificar-me da existência. “ 

Sim, Woody Allen você  ainda está vivo!  

 

 

OS 100 ANOS DE MARILYN MONROE

 

Mais do que viva está Marilyn Monroe, cem vezes morta e cem vezes rediviva, podemos dizer que ainda chegará o século de Marilyn Monroe, evocada de forma hiperrealista por José Agripinno de Paula em seu romance Panamérica, ressurge autopoetizada como uma espécie de esfinge americana cujo enigma está por baixo da pele, em sua alma, leitora de e.e. Cummings e de James Joyce, cantora e poeta a ser redescoberta, Marilyn era a única atriz capaz de interpretar sofisticadamente a visão superficial que nós, homens temos das mulheres, interpretar e desconstruir de modo sutil com sua própria vida o clichê da blondie girl.  Ela era o contraponto perfeito para o sub-existencialismo de  James Dean e para o distanciamento irônico e decadente de Marlon Brando, executando uma performance pós-psicanalítica de dentro da caricatura do desejo masculino, ela performava o inconsciente trágico dos U.S.A., principalmente em The Misfits ( Os desajustados) de John Huston no qual ela e Clark Gable estão em dimensões diametralmente opostas do mesmo mito trágico da humanidade. O cinema perdeu muito com sua  morte abrupta e segundo muitos um assassinato planejado nos altos escalões da política norteamericana, a mesma névoa envolve a morte de Michael Jackson, em algum momento da história, tudo será decifrado. Fiquemos com o poema de Sharon Olds : 

 

A MORTE DE MARILYN MONROE

Os homens da ambulância tocaram seu corpo
frio, ergueram-no, pesado como ferro,
para a maca, tentaram fechar a
boca, fechar os olhos, amarrar
os braços aos flancos, arrumar um fio de cabelo
rebelde, como se importasse,
viram o contorno dos seios, aplainados pela
gravidade, sob o lençol
conduziram-na, como se fosse ela,
degraus abaixo.


Esses homens nunca mais foram os mesmos. Eles saíam
depois, como sempre faziam,
para um drinque ou dois, mas não eram capazes
de se olhar nos olhos.

Suas vidas deram uma
guinada — um tinha pesadelos, estranhas
dores, impotência, depressão. Outro não
gostava do trabalho, a mulher parecia diferente,

os filhos. Mesmo a morte
parecia diferente para ele — um lugar onde ela o
estaria aguardando,

e um achou-se de pé à noite
à porta do quarto de dormir, ouvindo
uma mulher respirando,
só uma mulher
comum
respirando.

Sharon Olds

[Tradução de Ricardo Carvalho. In: Afetivagem. Disponível em:

< http://afetivagem.blogspot.com.br/2007/03/um-mito-em-platinum-bonde-olds.html>. Acesso em: 29 jul. 2016.]

 

 

A ODISSEIA DE CHRISTOPHER NOLAN –Primeira parte


 

Antes da travessia  

Christopher Nolan é um primo de segundo grau de  Ridley Scott e  sobrinho espiritual  de James Cameron, minhas expectativas são as mesmas que iriam anteceder uma sessão de um filme baseado em Antígona dirigido por Akiva Goldsman, o diretor ideal para um filme desse porte seria o australiano George Miller que do alto de seus 80 anos redimensionou a tragédia distópica com a série Mad Max, imagino que A ODISSÉIA dirigida por ele seria a exposição de uma dimensão mais intimista do épico grego e um ritmo angustiante e possivelmente com mais lirismo que somos capazes de imaginar, no fundo é a imaginação que nos faz ir aos cinemas e é ela que pode ser surpreendida ou traída pelo filme; se existe uma crise incontornável  dentro da cultura contemporânea, é a crise da imaginação. Vamos ao que antecede não apenas a sessão, ao que antecede a cultura literária como a conhecemos hoje: A ODISSÉIA, O LIVRO. A melhor edição que temos em nossa língua é a de Odorico Mendes, que se encontra fora de catálogo, espero que com o filme ela volte para as livrarias, há uma versão editorialmente fraca da Martin Claret que poderia ser relançada em capa dura com notas acadêmicas de rodapé e o diabo. O que me vem na cachola, enquanto espero a sala do cinema abrir é o filme O DESPREZO de Godard, que é atravessado pela ideia de uma versão fílmica de A ODISSÉIA , no filme de Godard , dirigida por Fritz Lang, Godard usa o poema de Homero para traçar os limites do sistema de produção de Hollywood e também os limites de uma adaptação cinematográfica, Homero seria platonicamente o ponto de curva impossível de ser alcançado por um sistema de diluição do pensamento e da cultura lírico imagética, marcado pelo consumo de massa e não pelo pacto com o poema. 

 

Depois da travessia 

Nolan engenhosamente sobrepõe questões sérias do nosso tempo na tessitura narrativa do poema homérico.  Há diluição?  Sim,  o poema de Homero foi usado aqui para a fazer aquilo que Orson Welles dizia ser a diluição de todas as diluições: o uso do cinema  apenas para transmitir uma mensagem. O filme  funciona maravilhosamente bem como entretenimento, talvez seja o melhor filme de Nolan, deve ganhar vários prêmios e etcetera. Tudo o que parece ser um desvio em relação ao poema original  serve bem ao filme enquanto entretenimento. A príncipal característica do filme está justamente em sua capacidade de trair o original usando o poema original como base atmosférica para um filme com o enredo de  A odisséia que no fundo não é sobre a Odisséia. Nolan no fundo não está falando da Grécia mas de um modo apaixonado dos USA e de suas guerras. A Odisséia de Nolan é a grande metáfora da desmistificação e louvor do herói militar, uma grande metáfora cristã onde o engenhoso Nolan ergueu um enorme espelho vivo criado com  câmeras IMAX. O cinema épico de nosso tempo está sendo feito por documentaristas na Palestina, no Sudão, no Congo ou na Amazônia e não por diretores abençoados por Hollywood. O diretor italiano Uberto Pasolini realizou um filme sobre parte da ODISSÉIA que tem muito a dizer sobre o filme de Nolan, o filme se chama O RETORNO, esse filme de Pasolini, embora menos ambicioso é também um recorte, bem mais denso do poema de Homero. A conclusão o que me parece é que raríssimas experiências de transposição de um livro clássico para formas outras são capazes de acrescentar algo à leitura do livro, o que ocorre é justamente o oposto. 


Marcelo Ariel


Marcelo Ariel é poeta, ensaísta e teatrólogo. Nascido em Santos-SP , Brasil em 1968. Autor de, entre outros, Tratado dos Anjos Afogados (Letra Selvagem), Ou o Silêncio Contínuo - poesia reunida 2007-2019 (Kotter Editorial-Prêmio Biblioteca Nacional 2020 ),  As três Marias no quadro de Jan Van Eick  (Fósforo/Luna Parque/Círculo de Poemas-2022), Arcano 13 (Com Guilherme Gontijo Flores- Editora Quelônio-2022), A água veio do Sol, disse o breu (Círculo de Poemas, 2024), Orvalho Permanente (Assírio e Alvim, 2025). Também em 2025 organizou para a Assírio e Alvim a POESIA REUNIDA de Cruz e Sousa;  neste ano, lança pela Editora 34, GUERRA TRANSPARENTE Seleta + inéditos.  É colaborador das revistas Quatro Cinco Um, EGaláxia e Cult  e, como autor convidado, do Laboratórios de Criação — Escrita de Literatura e Teoria dentro do Programa de Estudos Comparados de Literatura Portuguesa  (Pós-Graduação da Universidade de São Paulo, Letras/FFLCH). Coordena, desde 2016 ,cursos livres de escrita, poética e filosofia em São Paulo.

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