Redes invisiveís, agentes das artes em ação


E o que seriam esses agentes? Nem sempre se percebe que tantas pessoas estão envolvidas em uma mostra de arte, além dos próprios artistas. Muitos profissionais atuam no sistema das artes ou nos bastidores, trabalhando na produção, mediação, circulação e legitimação da arte. Toda essa rede, que faz a arte existir, depende dessas pessoas. Esse ecossistema é formado por educadores e mediadores, críticos de arte, curadores, artistas, montadores de exposições, produtores culturais, galeristas, historiadores e colecionadores.

É justamente essa rede, na maioria das vezes invisível, que se materializam as exposições em museus, galerias, espaços autônomos, espaços públicos, feiras de arte, ou em qualquer lugar onde a arte possa existir, possibilitando ao público vivenciar esse universo fascinante criado pelos artistas.

“Redes invisíveis, Agentes das Artes em ação” foi idealizada pelo artista Luiz83, com larga trajetória; Luiz, além de artista, é montador profissional de exposições e feiras de arte, tendo trabalhado em grandes museus em São Paulo e Brasil afora, tratando de equilibrar seu tempo entre sua produção e o trabalho. Como ele, inúmeros artistas/curadores, professores, montadores, produtores, gestores de espaços autônomos e outros procuram se dividir sem deixar sua verdadeira paixão: fazer arte. Mostrar ao mundo suas poéticas, distendendo a nossa compreensão e interrogando questões do momento em que vivemos. Ao lado da curadora Isabel Villalba, Luiz83 escolheu 27 artistas/agentes para compor esta coletiva intrigante e diversa no Alê Espaço de Arte, espaço autônomo localizado no bairro do Brooklin, em SP. Foram meses estudando e escolhendo obras; Isabel trabalhou para que o diálogo entre essa diversidade fosse possível.

Nesse contexto proponho mapear algumas obras dentre as 44 apresentadas nessa exposição.

A obra de Luna Dy Cortes faz a pergunta que não quer calar e a insere no título: Quem paga a conta? Como artista trans, aponta, em sua obra, uma lista tipo “notinha”, presa a um prego, onde uma bandeira do Brasil em esmalte vermelho está espetada. A lista contém itens com os quais uma pessoa trans precisa lidar emocionalmente e financeiramente. ex.: psicólogo, documentos, atendimento médico e cirurgias. Quem paga a conta em um país que enfrenta a transfobia estrutural e lidera índices de assassinatos de pessoas trans no mundo?

A artista Emaye Natalia pesquisa a relação entre a população negra do interior paulista e a indústria da cana-de-açúcar — importante atividade econômica na região desde o final do séc. XIX — e apresenta nesta exposição o trabalho de um grupo de mulheres cortadoras de cana. Em meio a vários objetos que coleta, os quais chama de livro, encontram-se envases de esmalte vermelho e frascos de álcool gel, indiretamente contando histórias pessoais vividas por essas mulheres no campo de trabalho.

Uma arma de brinquedo de Betto Souza aparece no espaço através de um QR code, com realidade aumentada. O artista lança as perguntas em questão na obra “Brinquedos Bélicos”: “As crianças brincam de arma porque se sentem em perigo? Ou por que são educadas para a violência?”

Um software autoral de Felipe Chefia mapeia redes de internet, e os pontos de luz seguem multiplicando-se como pequenos seres vivos. Aborda questões como tensões e contradições do impacto do uso da tecnologia em um mundo constantemente conectado.

Ju Granja traz para o jardim da galeria nove peças (como os nove meses de gestação) em cerâmica simulando formas de vulva, alguns com plantas outras com concreto. Trabalhando com frequência com este material, pretende simular o ciclo da vida e sua finitude.

Andre Filúr produz uma escultura de cerâmica emulando um artefato sagrado rodeado de folhas e sementes: um rosto surge de um campo onírico, espiritual, de olhos fechados que representa algo visto em um sonho. Na sua pintura exposta na mesma sala, um rosto com forma escultórica lembra carrancas do nordeste brasileiro que são de extrema importância na pesquisa do artista. Tradicionalmente são fixadas em embarcações que navegam pelo Rio São Francisco como amuletos de proteção. Pedaços de ossos moldados em latão são instalados entre uma composição de espelhos, discutindo a desigualdade social e a fome, obra do artista Wilian Souza. Outro claro manifesto político e social surge da obra de Luiz83 onde uma sacola plástica preta, pendurada no teto do espaço, grita “Help” incessantemente. Artistas e agentes das artes se manifestando em diversas linguagens atingindo o publico com sua produção poética, contemporânea e autoral. Poderosa e intrigante, a exposição articula questões éticas, políticas e sociais, afirmando a arte como um campo de tensão e leitura crítica do nosso tempo.