Wallace Stevens em seu livro de estreia
Wallace Stevens (1879–1955), poeta, jornalista, advogado e empresário, publica seu primeiro livro apenas aos 44 anos.
Arredio às badalações literárias, não vendeu mais de cem exemplares. Bastou para que a crítica rigorosa reconhecesse
ali um dos futuros grandes nomes da poesia norte-americana.
Depois de Harmonium, vieram outros seis. Um poeta e sete livros. Número de ressonância cabalística, que se dobra sobre si como a insinuar algo além. Acaso? Se o foi, que surpresa nos reservou — como diz a canção popular —, pois essa é a engrenagem de sua poesia: tomar a palavra e revolvê-la ad infinitum. Não como instrumento, mas como linguagem — em que o real serve de pretexto ao poético: um mundo que cria outro mundo, como formulou Octavio Paz.
A palavra, nele, vibra como matéria imantada pela própria linguagem.
Prazer do texto? Deveras. Cortes móveis, cadência rítmica, imagética variada, rigor reflexivo: tudo converge — sem alarde —
para seduzir inteligência e sensibilidade.
E como o consegue. Em Harmonium (tradução de Alessandro Funari; Editora Cobalto, 2025), reaprendemos que a poesia não
precisa da chatice nem da engabelação para ser bela.
Não se trata, porém, de poeta fácil. Stevens não usa a linguagem para disfarçar o pensamento nem amortecer afetos.
Ao contrário: é poeta do concreto, dos sentimentos nítidos. Não perfuma vapores.
Contundente, à faca só lâmina, busca o claro enigma — ora na sintaxe brusca, próxima da precisão haicaísta; ora no andamento
grave da logopeia — “a dança do intelecto entre as palavras”, na fórmula de Ezra Pound. Poesia em fricção com a filosofia.
Essa concisão encontra-se aos montes em Harmonium. “A virgem levando uma lanterna”, por exemplo, organiza-se em três tercetos que roçam o haicai:
É justamente essa rede, na maioria das vezes invisível, que se materializam as
exposições em museus, galerias, espaços autônomos, espaços públicos, feiras de
arte, ou em qualquer lugar onde a arte possa existir, possibilitando ao público
vivenciar esse universo fascinante criado pelos artistas.