prosa

Antônio Geraldo Figueredo Ferreira

A disputa

 

 

 

 

 

A disputa



"em toda consciência moral
baseada no reconhecimento da justiça e da graça,
o dilema do jogo e da seriedade,
até aqui insolúvel,
deixará de poder ser formulado."

Johan Huizinga




tudo tudo mas tudo tudo mesmo dando errado o avesso nas costuras desfeitas da vida estampada no sovaco suado bem debaixo das fuças essas coisas tortas distorcendo a direção e os amigos todos enchendo o saco vai pode ir vai de cabeça a família junto vai toma juízo vai e a cabeçada no poste sem luz sem túnel sem trem sem carro a cem por hora a cento e vinte a cento e cinquenta que seja por isso me cansei e fui mas fui do meu jeito que era o único jeito sim criei coragem peitando os farrapos e a tontura que não passava foi isso o que não é pouco não talvez um lampejo num estalo de obscura lucidez de mim e não vi mais nada porque tudo muito claro cegando os atos e as intenções encobertas pronto saltei do viaduto saltei 

 

                                                 o vento o estômago a pancada 

 

mas não morri caralho não morri puta sacanagem do destino não morri e ainda fiquei estropiado 

 

                                       e aquela pá de gente 

 

ele pulou eu vi ele pulou eu também vi de relance coitadinho o pisca alerta pulsando a vida em cacos corre aqui corre liga pro samu liga você a zonzeira zumbida nessa dor latejada ele vai desmaiar ele está morrendo liga liga liga logo acho que não escapa liga de novo então eu vi sim já falei que vi porque vi caralho estou sem créditos porra pulou do viaduto a dor a dor o maluco pulou acho que apaguei mas de repente o zumbido de novo pronto pronto o resgate pra trás vamos calma não conheço abre aqui graças a deus rapaz calma isso isso o colar a manta cuidado com o pescoço isso vai cobre pronto no três cuidado assim um calor que não deixa o frio entrar meu deus eu precisava tanto daquele frio maior tanto tanto por quê? por quê? as vozes se misturando engroladas quem? a sirene o motor a palavra já já começa a fazer efeito calma o hospital o sangue nos olhos o mundo avermelhado em derredor girando girando e girando o carrossel de angústias a cavalo e outra patada mais outra e outra uma voz do nada sobressaída a vida não é brincadeira não é concordaram respirei quase sem querer um pouco chiado o silêncio mas

 

acordei de novo a vida num supetão os pacientes chatos que gemiam condoídos de mim o suicida meia boca torta porque bati a cara no asfalto e perdi os dentes da frente os beiços abertos estancando as palavras mudas ardidas num sopro inconsciente quando derramadas da cabeça dos talhos e caralhos e porra quebrei o nariz também no entanto pior muito pior as visitas nesta enfermaria lotada e depois os conselhos de merda ô ô poxa rapaz você é que precisa rumar o trilho dos dias no caminho da felicidade entende? não não entendo bosta nenhuma seu filho da puta o sujeito me olhando penalizado buscando as palavras certas que não me fizessem − quem sabe? sair manquitolando pra me enfiar debaixo de um ônibus a toda por causa de uma lição pra lá de furada sim meu filho a vida é assim deus dá uma segunda chance aiaiai não me faltava mais nada uma segunda chance? 

 

então esse amigo parente colega de serviço e o caralho a quatro cantos de todo mundo transformado num único sujeito sim sim eu acho que variava um sujeito só o demônio ali em pessoa salmodiando a minha incondição de suicida malogrado tem cabimento? eu um rabudo que pra ele teve a sorte de não morrer esborrachado e talvez por isso mesmo naquele momento irmanado ao cretino que se sentia diante de mim um felizardo sem o sangue-frio de barata pra saltar desta vida de merda sim sim um único sujeito remendado aos nacos de todos esses filhos da puta que teimam em me visitar com essa cara de velório falido sem pão com mortadela e um copo plástico de tubaína sem gelo seguido de cafezinhos frios isso isso todos num só eu mesmo inclusive eu eu em mim um lúcifer ainda ontem acendendo a luz tremida de um cigarro sem filtro no terraço caindo aos pedaços da casa alugada na periferia do cu do mundo ou pior ainda nas pregas descabaçadas do mundico de um sujeito ferrado na vida eu por completo em pedaços eu um imbecil que sabe cuspir no vaso de antúrios secos a porqueira de escolhas malfeitas sim uma raiva mansa inexplicável noutra luz? será? foi assim ou mais ou menos assim segurei o palito de fósforo e fiquei olhando a chama até me queimar não sei por que fiz isso juro que não sei os dedos na boca pra engolir a dor que brotou com viço da pele em duas bolhas justapostas como as engrenagens enfim azeitadas deste maquinário inútil que carrego à toa pra malemal arrancar com as unhas lascadas no concreto bem cimentado desse cotidiano sem saída o sustento de quem não pode aguentar o peso nosso de cada dia que o diabo amassou

 

 é assim que se diz? 

                                              é? 

 

agora me lembro ou acho que me lembro porque lembrar não é reviver mas viver ao contrário do que esses lazarentos dizem eu saí caminhando sem rumo sim sim e sim de novo caindo por sobre o novamente e caindo e caindo desta vida de merda no ar o desemprego espreitando à noite os latidos em claro na madrugada que os galos não tardam amanhecidos sim sim que onde os raios do último dia quando os nãos num definitivo não,

 

                agora porém  

 

o horário assim esticado dessas visitas em ecos e todos num só eu pelo bairro então perambulando à toa até que de repente a legião no quarto sujo deste hospital vagabundo com as formigas pelo chão à caça de restos respingados da urina do diabético que morreu não faz nem meia hora pensava nisso sim uma ideia finalmente e se eu fingir que durmo? até que uma dessas visitas chutando o papagaio pra debaixo da cama levei um susto filho da puta esse filho da puta agora a minha urina crescendo em mancha como um câncer espalhado no piso desta enfermaria prestes a comer a carne aos poucos de um bando sem lugar pra cair morto da silva do espírito santo dos santos isso isso dos anjos também o doente ao lado com cara de nojo com ânsia de vômito sim porque a urina amarela aquarelando traços de sangue em manchas que formavam um céu no entardecer poente dos ladrilhos mal rejuntados e o lazarento do meu amigo desembuchando então um caso autobiográfico pra disfarçar a covardia de si porque toda história é sempre de si mesmo enquanto os molambentos olhando em mim as feridas abertas sob o pano das calças deles mesmos até o zumbido se desligando pra ouvir melhor num estado de saúde doentia o resto arrastado nos dias e meses e anos vindouros de uma incapacidade perene esse filho da puta morfético lazarento dizendo de boquinha cheia 

 

a minha vida nunca foi boa pior que a sua você sabe mas eu fiz o que vou lhe contar e deu muito certo deixei de pensar besteiras sabe criei vergonha graças a uma simpatia isso isso uma simpatia sim só isso sim coisa simples olha presta atenção não liga praquele coitado ali gemendo não depois o enfermeiro passa um pano com desinfetante e ele deixa de frescura olha é assim sexta-feira santa você às três em ponto da tarde pois é pois é na semana santa só funciona na semana santa isso isso à hora nona só você na porta de sua casa é isso mesmo você sozinho sem ninguém pede pra entrar com jesus no rumo certo da vida entendeu? e reza um pai nosso depois uma ave maria então diz pra si mesmo "par" isso isso aquele jogo do par ou ímpar você diz "par" pensando na mão direita fala alto "par" porque direita é a mão de deus e em seguida murmura "ímpar" balbuciado com o pensamento na sua mão esquerda que é a mão do outro não preciso dizer quem pronto chegou a hora da disputa derradeira "e um e dois e já!" pronto você estica um dedo indicador na direita e o outro indicador na mão esquerda sim sim um dedo apontando pro outro na frente do seu peito de novo compassado pronto você ganhou deu "par" deu par com deus pronto "um mais um são dois" uma coisa boa por dentro você entra no lar com o pé direito a cabeça erguida sem olhar pro chão como se tivesse sempre dois pés direitos você nascido assim entende? então é isso meu amigo você vai ver daí pra frente o universo desembestado em alegrias alguma tristeza sempre tem porque tristeza tem mesmo mas o sorriso de novo em tudo sim você vai ver

 

olhei bem nos olhos dele o lazarento ria ria ria sem parar aquele filho da puta ria supondo ter me ensinado a viver em mim a minha vida que não tive colhões de desviver porque escolhi mal a altura da saída sim fiquei sabendo depois que uns desgraçados dizendo que escolhi o viaduto mais baixo de propósito pra não morrer porra nenhuma esses morféticos ele continuava rindo rindo de mim só pode filho da puta sim safado mesmo aí não aguentei e interrompi o sujeitinho dos infernos eu não ia contar mas resolvi 

 

                           chega meu amigo chega!        chega!     pode parar

falei com decisão o ar fazendo ffffffff pelos buracos faltantes dos dentes ffffff e fffff e ffff as palavras ardendo os cortes os pontos pode parar porque isso eu já fiz faz tempo já fiz essa simpatia minha avó que me ensinou faz tempo mas não sei por que deu uma vontade desgraçada de colocar "dois" na mão esquerda então coloquei coloquei quase sem querer "dois" uma vontade que não deu pra segurar então "dois mais um são três" deu ímpar caralho tirei par ou ímpar comigo mesmo e perdi eu perdi eu perdi

 


Antônio Geraldo Figueredo Ferreira


Antônio Geraldo Figueredo Ferreira publicou o romance as visitas que hoje estamos e o livro de poemas eu, morto, pela Iluminuras. O livro infantil o amor pega feito um bocejo foi editado pela Companhia das Letrinhas, e outro livro de poemas, peixe e míngua, pela Nankin. O romance siameses, vencedor do Prêmio Machado de Assis, da Biblioteca Nacional, em 2022, foi publicado pela Kotter, em dois volumes. Recebeu apoio, para ser escrito, do Programa Rumos Itaú Cultural, 2015 - 2016. Seu último livro, o infantojuvenil Um lobo-guará gosta de refri?  foi publicado pela Cepe, em 2025.

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