folhetim

Isadora Salazar

Água de mortas

 

 

O EPÍLOGO DE MARINA 

 

São raízes retorcidas os caminhos de mangue que me levam até essa maré. 

Ex-voto, 

Aguardo Benício. 

 

 

 

CAPÍTULO I 

LANÇOS 

 

I 

 

Nasci assim, água de mortas. Dona Rosa, minha babá de tantos anos, bem me advertiu isso no dia do meu noivado com Amir. E justo ela, dona Rosa, justo ela que fechou sua janela para a luz do foco da lanterna de Benício. E Benício, esse sim, minha lanterna. 

Afogados. 

Nasci assim. Água de mortas, essa maré. Dona Rosa bem me advertiu isso — porta do meu banheiro adentro, no dia do meu noivado com Amir. Benício mimetizado no meu quarto aquela tarde. Maquiagem desfeita pelo segredo recém interrompido — paredes de espelho de policial barato. 

Pouco importa. 

Fodo com Amir, meu noivo de diamantes duplos, mas faço amor com Benício. Fodo com Amir regularmente. Três vezes por semana como convém a uma boa noiva cristã. Gozo pouquíssimo. Exatamente como convém a uma boa noiva cristã de um noivo que flutua. 

Aguardo. 

Daqui a poucos dias serei outra. E como outra, mal torcer para que as sacanagens jurídicas comprovadas aqui sejam conhecidas pelos sapientes corregedores desse tempo. 

Três vezes por semana? Pergunta-me Benício puto de ciúmes. Pouco importa. 

Pau dentro. 

 

 

II 

 

Encaro São João da Ponta como se fosse Paris. 

Pego um ônibus na rodoviária — Há muito descobri a importância de comprar passagem na janela do intermunicipal. Não tenho carro. Jamais o tive. Quando necessário, um grande evento ou almoço com as amigas da minha mãe, encaro um aluguel e posso usá-lo por mais um tempo ou dois. Assim, vestida de sonhos, circulo nas tardes de chá e compras com minhas amigas de faculdade. Nessas tardes, e para os blindados que adornam minha garagem, uso o cartão de crédito de Amir e conquisto meu status de fachada. 

Benício toma banho. Farda de sargento da PM suada perto da bica do jardim. 

Quando menina, passeávamos na praça e cheirávamos a churros de doce de leite aguado ou a pizza mista com suco de bacuri azedo. Hoje, Benício toma banho e cheira a perfume de catálogo, escapamento de moto e vela de citronela das noites de concurseiro no pátio sem luz da casa de meus pais em São João da Ponta. Pouco importa: fodo com o cheiro do homem, gozo com a porrada que levo e o amo em seguida. Amo Benício. E, quando menina, passeávamos na praça e cheirávamos a churros de doce de leite aguado ou a pizza mista servida com suco de bacuri azedo. E éramos felizes. 

Hoje dona Rosa teme o filho — Benício não é para ti, menina. Em Belém, olho os degraus desgastados de antiga pompa das escadarias do casarão da minha família e sigo em frente. Sei exatamente o que dona Rosa quer dizer. Desço princesa. Aliança no dedo, acompanho Amir, meu noivo, a mais um casamento de mentiras. 

 

III 

 

 O carro estacionado a nossa frente arrancou um grunhido de freios contrafeitos à hora do abandono. 

Agora, os amigos de Benício se riam já ao longe das pilhas de latas de cerveja vazias que deixaram próximas a nós. 

Agora, os amigos de Benício se riam, margeavam a orla, corriam no cantar de seus pneus vazios e viviam ainda sob a crosta de escuridão que os perseguia. 

(Seu Abildenor, o padrasto de Benício, próximo demais que estava da antiga arrebentação do rio, também). 

Com eles, sumiu-se a noite. Comigo, ficou o dia. 

 

IV 

 

Benício e eu estávamos quentes e felizes naquela noite. Sentei no banco do carro. 

Desliguei o som. 

 Olhei-me no espelho. Espantou-me o que vi. 

O emplastro de umidade que a noite havia deixado em meus cabelos não correspondia à imagem que eu fazia de mim. Aquilo sim era uma distorção da minha super-realidade imaginária. Prendi os cabelos e satisfiz-me ao perceber que o cheiro da minha falsa riqueza ainda estava presente mesmo que na impregnada aquosidade da minha nuca. O cheiro de uma riqueza seca e dos perfumes presenteados por Amir. O cheiro de nossas vaidades e viagens. O cheiro de nosso amor recém-conquistado e do desafeto desfeito há tanto. 

Sequei-me. 

Prendi todo o cabelo. 

 Olhei-me no espelho. A pulseira em pingente de flor que Benício me dera presa em mácula junto a mim. 

Senti ganas de arrancá-la. Ignorei-a. 

Aumentei o ar. 

 Sempre odiei peles úmidas. Por isso, dois dos meus melhores homens nunca as tiveram. Por isso, não me permitia tê-las. Por isso, sempre desenvolvi a consciente técnica de exalar cheiro de fêmea no cio mesmo sem suar, um odor específico para usar quando essa faculdade me fosse necessária. 

Aumentei o ar-condicionado do carro. Pouco me importa a gasolina de Benício. 

Preparei-me para o coito animal ao final de uma noite baixa e tediosa. Sempre odiei os amigos de Benício. 

Aumentei o ar-condicionado do carro. 

Foda-se a gasolina de Benício nesse carro alugado por Amir. Foda-se tudo. 

Pelo retrovisor vi Benício, que já batera minha porta após despedir-se de seus amigos, rodear o carro e beirar o lugar do motorista. Odiava aquele corpo suado e regado a cerveja de botequim como se fosse porco de abate. Aliás, naquele momento, odiava tudo o que me enredava. Odiava tudo a não ser a proximidade do nascer do Sol tão perto do rio naquele meu São João da Ponta. 

E Benício era a noite. 

Finalmente a porta ao lado do motorista bateu após aquela volta infinita, Benício entrou no carro e agora ele era meu. Preparei-me para aquele coito de fêmea à espera do bote, do toque ou do choque que iria me jogar de encontro àquele corpo de dobermann atiçado. Preparei-me para o bote, meu bote – cobra à espreita do cheiro, do rato, do sangue. Preparei-me para o bote. Eu, cobra, mas não havia mais calor e Benício, naquela hora, era dia. 

-Vamos ver o nascer do sol na margem? — me disse enquanto me esticava a mão. 

 -Preciso voltar para casa, Benício, dona Rosa nos espera, tu sabes. 

 -Sei, Marina. Sei que ela só te espera. 

 -O quê? 

 -Sei que ela só te espera, Marina, como, na verdade, ela sempre só te esperou. Mas nada, deixa, vamos. Olha esse sol, Marina. Vamos? Fica comigo? — me disse-me Benício já no esticar de sua pata de esperança. 

Olhei aquele homem por instantes e de repente ele não mais era o macho que me comia em corpo de dobermann capa preta, Benício era um homem, apenas. Um homem solitário em pele de peçonha gelada e em busca da companhia de quem amava. E era Benício apenas. Sorri e dei-lhe a mão. Caminhamos juntos até o fim da noite e o início do dia. Pássaros cantavam ao nosso redor na entrada da casa no fim daquela noite de emendada. Dona Rosa preparava um café que bebemos juntos os três, na pequena edícula da casa de meus pais, na edícula casa e prisão onde Benício, dona Rosa e seu Abildenor moravam em minha querida São João da Ponta. O sol alto já esturricava o trapiche e a pele dos primeiros pesca dores do dia quando tomamos o último gole daquele encontro. E dona Rosa preparava um café que bebemos juntos os três, no prolongar dessa noite de solidão que nunca termina. 

 

V 

 

O tiro (no meio) da noite. 

Acordei. Não abri os olhos. Tranquilizaram-me os sons do Chiado. 

Faz tanto tempo que o mesmo ridículo estampido de um calibre 22 estoura em meus ouvidos que, no agora, só me sobressalto quando ele não surge sobre mim e em meio aos meus pânicos de meia-noite. O mesmo fraco e ridículo tiro. Todas as noites. Unívoco e inevitável — como o som de permeio do restaurante às margens de uma cachoeira em que almoçamos no interior de São Paulo, certa vez. 

-... o som, mamãe?! 

-Acho que, com o tempo, as pessoas devem se acostumar, filhinha — respondeu-me Dona Régia à minha frente e sob a bela mesa posta daquele restaurante de encontro. Mas ela não sabia, não tinha como saber o que de fato lhe dizia uma criança de seis anos ansiosa por algum contato com a mãe. Porque ela não estava lá. Dona Régia nunca esteve. Porque nesse exato momento em que me respondia, em meio ao nosso almoço de reunião, em meio a sua pausada, bitonal e inumana voz de uma Nico I’ll Be Your Mirror em disco de vinil, ela até estava lá, regida por esse mesmo espaço em que o abismo encontra o rio, mas tão longe de mim, tão longe da mesa requintada que se interpunha a conversa que nada — nada! — a faria retornar para a nossa volta e à sua função materna. 

Nada. Porque, 

nesse exato momento, 

Dona Régia quebrava pirâmides e pilhas de pratos imaculadamente brancos sobre a cabeça de Dr. Prado ao tempo em que suas unhas cravavam ódios à jugular da estonteantemente bela recepcionista do restaurante, a mesma que nos servia como hostesses, tudo nesse exato momento — mulata sensacional, de tirar de rota qualquer Boeing de céu de brigadeiro. — recordou-se orgulhoso de seus feitos, anos depois, a um amigo de ocasião, Dr. Prado, sobre essa tarde de almoço em família. E Dr. Prado sempre teve vários amigos de ocasião, em especial Dr. Cláudio, o maior amigo de ocasião de toda a sua vida. 

-Por que você não estava lá, Prado? Por que você não estava lá quando Ava morreu? – Régia cobrava no meio da madrugada. 

-Para de falar isso, Régia. Foi um acidente. Parou de respirar no meio da noite. E só. Não têm culpados. Eu não sou o culpado. Mas tu és: nós temos outra filha, Régia, bem aqui, aqui, não no céu ou em uma religião como tanto procuraste, Régia, mas bem aqui, no quarto ao lado. Parede com parede. Por que tu não olhas por ela? 

-E olhar ela para ti enquanto tu me roubas a juventude com essas vagabundas de vintém? Não, obrigada, Prado. A nossa chance de ser uma família juntos tu já perdeste. Minha família está em perda, Prado, em perda. E graças a Deus Ava está bem longe do teu bote agora. 

E dito isso, como em uma catarse irônica, Dona Régia entrava no meu quarto, pé ante pé e tocava a minha testa (eu fingia sono profundo em estado REM) — Essa menina está com febre, dizia a uma dona Rosa de olhar semicerrado em cama de campanha — depois, coordenava com Graça, a loira secretária de Dr. Prado à época, uma viagem para o Rio — mãe, vou perder aula — eu dizia — não se preocupe com isso, filhinha, é saúde, é para consultar o melhor alergista, meu amor. — Odeio essas viagens — eu respondia confusa. Dias depois, estávamos as duas no Rio. Eu ia ao alergista com uma das minhas tias cariocas bem idosas e depois passava o resto dos dias a me divertir com pombos de sacada, desenhos da TVS e serviço de quarto trazidos a mim em luxuosos carrinhos de hotel. Dona Régia, essa eu mal via a semana inteira, e só sabia de seu retorno ao apartamento em todas as noites dessa estada pelo acúmulo das sacolas de compra que se juntavam intocadas, noite após noite, em um dos cantos de nossa suíte. 

 

*** 

 

As discussões de dona Régia e Dr. Prado começavam e terminavam sempre da mesma forma. Como um tiro em meio à madrugada pulsante, fria e chuvosa dessa Lisboa a que tanto amo e à qual pertenço agora.  E sobre isso tudo e sempre próximo à cabeceira da minha cama, a anóxia e o som da mesma cachoeira invariável, suspensa que estava sobre mim, como um fantasmagórico pano de boca desse rico teatro de dores e lembranças. 

E eu as sentia todas. 

 


Isadora Salazar


Isadora Salazar: nascida em Belém do Pará, é escritora.  Publicou os romances ÁGUA de mortas, Editora Patuá, 2017; PHANTALASSA ou aconchego-me sobre metralhadoras, Mezanino Editorial, 2021; CAVEIRA na mala, Editora Sultana
2024 (em coautoria com Thienne Johnson). Publicou O Mito de horácia bigbang – Série Lições de Continentes – Lumme, Polichinelo e Mezanino Editoras, 2021. Publicou MEIO-dia em Plutão, Editora Córrego, 2023. Publicou AQUARELABANG, Editora Sultana, 2023. Participou da Antologia NA GRANDE noite arquitetada, Mezanino Editorial, 2022, entre outras obras. Atualmente finaliza seu novo romance e se dedica ao canal Entre Surtos e Linhas. É formada em Música, Direito e Gestão Cultural.

Isadora é mãe de dois filh@s, cinco gatas, e uma vira-lata chamada Beibei; Isadora nasceu Isadora Octavia Frederica Augusta Avertano Rocha e seu nome artístico é uma homenagem à sua avó materna, que a criou. Emancipada desde os 16 anos, costuma dizer que nasceu dos pés de jasmim da Ilha do Mosqueiro.

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