poesia

Guy Corrêa

Antípodas ao fluxo

 

 


   Fotografia de Guy Corrêa

 

a caixa 



cá estou numa
                                 caixa 

meu invólucro
armadilha poética
                                              
                                                      me tira
                                  QUEM
                                                    me pôs
a caixa
alguém abre

algo se acha
sem luz
sem água
o mundo desaba

na caixa
realizo com as paredes
minha foto
síntese da minha casa
caixa minha
eu
o meu retrato
e a caixa

que bom se algo não me valha

ao menos vale um escuro iluminado
e só é bom uma única vez
quando a caixa
me abra

 

- Cinema Triste, Ed. Arte Pau-Brasil, 1992




 

ele, nada e alguém

 

 

eu tenho um osso
                     um repelente
                     e uma escova de dentes 

trago meu texto sobre um andor
e um hálito amargo no estribilho
trouxe também um cadarço sujo
e um livro folk

ontem desci de uma barca na praça xv
de onde se espiava quinze e trinta
as pombas desconfiaram rapidamente
as pompas – oh, meu deus – as pombas

eu tenho um osso
                    um repelente
                     e uma escova de dentes
minha gengiva sangra 

 

- Cinema Triste, Ed. Arte Pau-Brasil, 1992




 

exiguidades 

 

sob o céu, um homem
sob este homem, seu atrito com o asfalto
/e no instante vigente (do homem citado),
um pensamento banal

encerrado, o tal entremeio, agora,
entre aquilo] que não se renova

- Dentes & Nomes (e os micropoemas), Ficções Editora, 2024

 




инцидент*

 

um russo
no metrô
indo pra
itaquá é
só uma di
a gonal
q u e n t e
seu atol
de conso-
antes e su
a carteira
indo pelos
ares tudo
tudo tudo
sem bê ó 

 

*(incidente)

 

- Dentes & Nomes (e os micropoemas), Ficções Editora, 2024

 


 

day off

 

antípoda ao fluxo, sob um quê de fim de semana
em dia útil, infere: “day off” /soul-fé na contramão
e no caldo de seu chiclete. rumina, rumina e
dorme.

- Dentes & Nomes (e os micropoemas), Ficções Editora, 2024

 


Guy Corrêa


Guy Corrêa  é paulistano, nascido no final dos anos sessenta, que enxerga o mundo através do humor, da poesia e da prática constante de subversões em imagens urbanas. Quando sai de São Paulo, costuma sentir uma estranha sensação de estar vivo. Publica pouco.

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