poesia

Horácio Costa

Aqui não importa ser noite

 

 



HISTÓRIA DO BRASIL 


A história brasileira fará sentido?
abraço o torso do Francisco, neste
duvidoso amanhecer.
                                       Aubade.
Como é escuro o seu torso, mal distingo
os contornos. O meu próprio corpo
está queimado pelo sol do verão
deste Rio de Janeiro: não fosforeço
na alba, protegido
por minha melanina.

Só há sentido se eu puder agarrar
o Francisco na alvorada. Sento-lhe
um beijo estalado no cangote,
bem onde (imagino, já que não posso vê-la)
ele mandou tatuar aquela flor de lis
medicea, florentina, a que tem
além do formato usual, isto é: francês,
dois ramos que envolvem
como dois ponteiros de relógio
só que de tamanhos iguais,
a corola do lírio.

Se não houver Francisco e abraço
e lírio e aurora, não haverá nenhum
sentido. Sem momentos que tais
seremos sempre aqueles seres perdidos
em um continente interessante e
sepulcral. 

A história só tem sentido
se feita pele, se reduzida
à possibilidade de encontro matutino
entre homens ah, tão diferentes.
Então faz sentido a História do Brasil.

 

Rio de Janeiro 3 II 2013

 


 

Kali, Huitzilopochtli

 

Amigo meu que me mandais um vídeo
pelo whatsapp, certo de que nossos gostos
comuns responderão pelo fato de que
seguramente ao vê-lo apertarei bem rapidinho
o sinal triangular para reproduzi-lo, posto tratar-se,
segundo a imagem congelada que funciona retoricamente
como o incipit do dito, de uma mensagem
entre dois veados de alguma idade –Vossa Mercê
e este correspondente vosso pelas dobras da net–
que devidamente babam pelo corpo masculino
em liberdade e em seu prime: pois, tal imagem/
cornucópia traz um bailarino no desabrochar seu
e seminu, vestindo um micro short branco e
confortáveis tênis não menos imaculados e
o corpo dito sarado que quiséramos ou ter
ou reter ou gozar em gozo verdadeiro ainda que
fugaz –e se tal acontecesse, já nos pareceria
milagre de algum santo protetor de veados
senescentes, repetidamente olvidados
pela cúria vaticana, cheia que deve estar,
evidente, de indivíduos exatamente como nós
avançados em anos porém para sempre cultores
de gostos que tais, ou preferências, se quiserdes.
Falto de santo para invocar no viciado santoral,
encontro o momento para recostar-me e, em
princípio, atenta e gulosamente desfrutar
do gato em questão – que não no seio da fila
que comigo esperava no Poupatempo de Osasco
onde o recebi e há pouco estive e nem, depois,
no supermercado onde me detive a caminho de casa
para municiar-me de alimentos terrenais, já
que os etéreos da libido encontrar-se-iam,
pareceu-me, garantidos por vosso bem-vindo virtual envio. 
Ahá: tive que portanto esperar até voltar à casa
e guardar a nourriture terrestre de acordo com
os protocolos da pandemia et me voilà, gideanamente
sentado no sofá, pronto para acompanhar os prováveis
sacolejos & trejeitos do espetacular bailarino
ao celular. 1,2,3: começa o quê? um funk. Nada
contra, amizadinha, desde que saiba o mancebo
dar o recado com seu corpo que a Antínoo inveja bem
daria. E então? aos poucos saio da órbita do feitiço
que exala e exalta e passo a pôr atenção à coreografia
que só remotamente lembra os movimentos
que aos brasileiros nos celebrizavam illo tempore:
nada de Bahia & axé, ou morro & sambódromo,
sequer da “dança das garrafas” & quejandos
das periferias das metrópoles. O ritmo talvez tenha
ecos de xote ou congado originários, mas os gestos?

Repetitivos, imitam o ruído das metralhas & afins,
que acompanham submetralhadoramente o sono
nas favelas cariocas, emitido pelo tráfico ou
pelas milícias-darlings do BolsoNero de plantão.
Balança a pélvis, ah tão tersa, ah tão túmida!,
o rebolativo dançarino insciente
em velocidade de semicolcheias e saraivadas
enquanto com as mãos reproduz o formato das
Taurus negociadas a céu aberto nas quebradas,
uma vez desviadas de nossas forças armadas.
Imita, sim, o gesto do presidente: dança a coreografia
da Morte instalada no Planalto. Com que empenho!
Quem terá sido o coreógrafo senão o povo brasileiro?
Em seu corpo de intersexual disputadíssimo
imprime-se o fascínio de Kali com suas pupilas
injetadas de ira, dançando azul o seu rito
vitorioso sobre o adormecido Shiva, ou ainda
e melhor: o de Huitzilopochtli, o asteca deus
da guerra, do sol e do sacrifício humano: tanto
sangue correu para afirmar seu predomínio –
longas línguas vermelhas embebidas em dorsos
de vertiginosas pirâmides. 
                                        O corpo faz parte não: é história.
Meu amigo: que envio, este vídeo! De repente
ponho-me ereto no sofá. Que alegoria do Brasil
de Bolsonaro me mandastes. O sorriso aberto
deste jovem & alva dentição contrastam em absoluto
com seu esgar não menos franco & o gesto que repete
enquanto sacode a pélvis no ritmo do metralhar
que o ensurdece e simboliza a deturpação do corpo histórico
do povo do qual é parte e que mecanicamente,
ainda que sensual, ao patíbulo se dirige. 

 

Osasco 23 II/ 7 IV 2021

 


 

MÁQUINA DE FRUSTRAR

 

Thiago, meu estudante, me escreve:
“Queria viver numa grande nação.”
Respondo-lhe, bom, conforme-se, vive em uma nação grande.
Urge a educação da frustração.
Corresponde ao real.
Frustramo-nos. Nos últimos tempos, cada dia
como pela ampulheta desce cada
grão de areia. Grão a grão, nova frustração.
Seria uma boa campanha publicitária?
Cívica? Frustre-se de vez, doerá menos.
Cultive a frustração como uma fimose
que com o tempo laceará. Não
é brasileiro, Deus. Cinqüenta anos em cinco
já mais. No futuro, haverá apenas, believe me,
mais futuro.
Assim se aprende bem: com a cara ao sol.
Olhe de novo o mesmo astro
que por aqui incansável queima.
Não apenas os teus desejos mirram frente ao real.
Não se trata de estoicismo.
O sol morrerá.
E o Brasil, grande máquina de frustrar,
também.

 

Osasco, 7 VII 2018

 


 

MÚSICA PARA ELEFANTE CEGO

 

O pianista generoso escolhe como platéia
o elefante cego de nascença.
Para ele seleciona passagens de Bach e de Schubert.
Os olhos do elefante cego são glabros
porém entreabrem-se ao som da música.
Não guardam expressão alguma
pois são os olhos de um animal cego de nascença.
Usualmente o elefante cego os mantêm fechados.
Talvez sejam sensíveis ao brilho, ao incômodo, à surpresa da luz.
Mas embalados por Bach e Schubert
procuram o dia: a dor não mais importa,
se houver, ao elefante cego.
O piscar desses olhos glabros é toda a recompensa
que busca o pianista que escolheu o elefante cego
como sua única platéia. 

 

Osasco, 5 VII 2019

 


 

O CORPO É UM CAMPO DA HISTÓRIA

 

Haverá new kids on the block?
Provavelmente sim, se depender da minha vontade.
A vontade move montanhas, dizia
a minha Tia Áurea, que se chamava assim
em homenagem à Lei idem.
Ora, se dependesse dos senhores de engenho,
não teria havido nunca a dita cuja.
Portanto, c.q.d. a fé remove montanhas?
Não foi isso, cazzo, que eu falei.
E sim do desejo: do desejo humano,
Algo mais forte do que o “princípio de desejo”
a volição
de que falam os filósofos.
O desejo humano sabe do óbvio:
que o corpo é um campo da história.
Não fosse assim e estaríamos ainda
construindo pirâmides.
Certo?
Há new kids on the block,
que sabem disso e aos poucos
construirão o corpo jurídico –
o outro do físico –
que projete o seu desejo.

 

CDMX 5XII21

 


 

POEMA RETÓRICO

 

Estará o texto de caráter moral
condenado à moralina para expressar
conteúdos morais? Como persuadirá
o leitor sobre a sua parcialidade
responsável enquanto contra-regras
sem transformar-se em cabide,
patético cabide, da homilética?

Na sermonista língua portuguesa
moldada em púlpitos e gabinetes
da puridade, haverá aproximação
retórica que por tais não esteja
conformada? E preservará o quid
da poesia o poema dito “filosófico”
que se enovela no boudoir?

Pufes, pós-de-arroz, lábios de coração,
ficareis para sempre em ostracismo na
maquiagem literária? Manter-vos-ão
para çempre hors-texte no banco de
reservas do futebol dos significados?
Raul Leal, aquela hidra, Al Berto e
Piva, Roberto: salvaguardai balbuciando

o rimbaldiano idioma na última flor
para que o hirsuto jesuitismo que dá
prêmios não impregne, inda mais, o ar do
camarim com colônias de extratos baratos
de baratas flores misturadas com pétalas
de plástico. Afinal, preconizam que só
se pode escrever poesia elevada se “séria” for:

tratais de manter do outro lado do biombo,
dominem linguæ, as sunguinhas roxas feitas
para excitar garanhões de passagem
e a lingerie e as ligas que transformam
o gentil amanuense em super-star.
Por quê? Çerá lei, digamos, mosaica?
Perdida está vossa batalha. Por que
não poderia o poema adestrar

a parafernália de conteúdos outros
impróprios para a sacristia vossa
para conclamar do leitor a reflexão
rumo a subidos relevos via repertórios
al-ter-na-ti-vos? O desafio persiste
mas não gera esfinges, assim e como
performatiza o presente texto. 

 

CDMX 20 I 22

 


 

CODA: REFLEXÃO DE ATLACOMULCO

 

Este é um espaço de 1530.
Foi aqui que o homem branco,
Cortés o conquistador, houve por bem
implantar o cultivo da cana de açúcar
próximo à urbe objeto de cobiça,
a caída Tenochtitlán, que nome
que a ouvidos europeus soasse
menos abespinhoso de pronunciar não tinha
até que impôs-se ao oxítono
a proparoxítona cadência: México.
Este é um espaço-matriz: um engenho:
há muito desaparecidas suas funções
precípuas, sobraram muros, o polígono de uma
muralha que encerram moendas e fornalhas,
as abóbodas sustentadas por arcos de meio-
ponto, tudo transformado em hotel, e de
luxo, e quatro e meia estrelas, e os eirados
transformados em lawns, gramados impecáveis,
com renques de árvores formando volumes
de domesticada vegetação tropical
que por sua vez enquadram o que sobrou da mole
propriamente dita do engenho original
e que se dispõe em naves de restaurante
de quatro e meia estrelas e grande impacto visual:
há quase cem anos este conjunto de ruínas
foi inventivamente retrofitado:
por aqui passaram a hospedar-se
intelectuais e políticos e astros
de cinema, Eisensteins e Ava Gardners,
e Frida e Diego e ditadores em curso
ou exilados, e eu nesse rol nem dantesco
nem circular nem infernal, todos aproveitando
do solo e do sol de Hernán Cortés
a oitenta ou cem quilômetros
da orgulhosa, única, CDMX.

O poema produz-se lentamente
contra a minha vontade de escrevê-lo
e mesmo da minha disposição em fazê-lo:
não falo de fantasmas ou lembranças
de uma cultura e mitologias não minhas
ou de fantasmas e lembranças pessoais:
é de madrugada, o clima cálido de Cuernavaca
a menos oitocentos metros de altura
prevê escritas à alba, arroubos &
entregas noturnas já seja de sêmen
ou grandes efusões líricas.
O vulcão divisa-se daqui como um enorme
caprichoso deus de braços cruzados,
em atitude de espera no horizonte:
Under the Volcano, escreveu Lowry
e este espaço cortesiano/cartesiano
terá sido freqüentado pelo seu Cônsul,
modelo de intelectual manqué
de entre guerras & impérios:
a presente reflexão
inclui a dor em meus ombros
hoje menor do que no amanhecer
de há um dia, porque nadei
na espetacular piscina criada
onde houve o galpão beneficiador
de café que acompanhou ou sucedeu
à moagem da cana de açúcar:
reza a singela placa de latão disposta
entre volutas de azul anil sobre branco 
pintadas no portal de acesso:
Esta alberca fue construída en el local que ocupó la
Planta Beneficiadora de Café, que fue otro de
los productos que se explotaron en esta hacienda,
fundada en el año de 1531 por Hernán
Cortés, Primer Marqués del Valle de
Oaxaca.  Mantenho a escansão de dita
esclarecedora placa para enunciar
que hoje brotam da água apenas
as ciclópicas colunas que sustentavam
o telhado: são oito, e sua rugosidade
conversa tenazmente com as pastilhas
vitrificadas azuis do fundo e com o líquido
da abundante água corrente que cai
do aqueduto que até hoje serve a propriedade,
mandado construir, ele também, pelo Conquistador.
Por estas naves haverão suado e morto
gerações de descendentes de tlahuicas
e mexicas conquistados: os retrofitadores
pelas paredes laterais derruídas
deixaram medrar essas árvores tão 
típicas, oh! amazing!, de amates
de troncos verde claro ou escuro:
sim, fotogênicos ao último grau,
que com sua frondosidade remetem
às pirâmides por elas abraçadas
no mundo maia do Iucatã
e da Guatemala. 

Este espaço é contemporâneo à
Capela Sistina. Disse-o acima?
Tornou-se um playground da narrativa
da expansão européia no teatro americano.
Faço parte dele, mas antes do amanhecer
e com renascida dor no meu braço direito
termino minha reflexão, aqui em Atlacomulco,
em poema.



Hotel Hacienda de Cortés, 14 III 22

 


 

DEZESSEIS GRAUS NA PAULISTA

 

I

dezesseis graus na Paulista
              tinha o verso tão estruturado esta manhã
e dirijo no fluxo
                    nunca houve lugar mais belo
                    nem cidadão mais fiel

 

 

 

II

chamam-te floresta de concreto       urbe d’aço
exageros         
                    tomo emprestado
olhares migrantes        aves d’arribação
                       fixei a ventania que juntou montes
                       d’outonais folhas na sarjeta
o céu brilhava
diadema d’Imperatriz
mulher que nunca tive

 

 

 

III

pude voltar com o meu olhar estranho
que sabe desnudar as tuas topografias
                          luxo supremo         
                                                  agridoce:
ninguém dirá que és
                     “um ninho de pelicanos”         por aqui
nenhuma falésia
                           ainda que
                                             gratuitas
adornam bromélias as tuas
                                                  árvores

 

IV

Clima de serra      disse a Vera
                          o momento exalou inspiração
quase ninguém conecta com ele
                                                            teus
uma vez pristinos rios
                         transformados em
                         esgotos
                                                             – quem o negaria?
exiges um olhar educado
                                                 em
constante educação
                                 que restitua a matéria
para lá do coriáceo do teu corpo

 

V

pude voltar
                      luxo supremo
Koh-I-Noor da coroa inexistente
                              só intuída
para sofrer as epifanias
                                          necessárias
cidade vestibular
             vestíbulo para alguma coisa não lírica
              também lírica
              pré-
              semi-
              para-
              meta-
              pós-
              ante-
              trás-

 

VI

já o sabia
             há trinta anos o sabia
não passou o tempo
o deambular permanece

quando não me encontro perto
                    ou dentro de ti
exilo-me e dói
                           – quem compreenderia?
os capazes de extrair beleza
do pó acumulado
sobre um arame farpado?

 

VII

Boa noute             professor de esquina
Sweet ladies
             oh flower of England   boa noute

um uruguaio havia há pouco na sauna
ou paraguaio              um cearense             um italiano
de membro parrudo como o de Michelangelo
um coreano               trabalhadores
teus
cidade viril
                     ou amante virago
suculenta virago
                         transformas em espetáculo
os teus corpos densos
              que ao olhar educam
              e satisfazem

 

VIII

vi o paraguaio extraviar-se na noite
                                perder-se em tua
                                magnífica maquete
e me confessei a palavra agridoce
           – que impressões ficarão de seus tênis
           sobre a rugosidade do meio-fio?
           partículas de desamparo
           aquele friccionar oitocentos metros
                   rumo ao metrô

breve subirá o dia
prevê-se uma manhã nublada
como uma estocada

 

IX

dezesseis graus na Avenida Paulista
sucedem-se esquinas
Peixoto Gomide      
Rocha Azevedo      
Joaquim Eugênio de Lima    
Frei Caneca
Augusta
             conselheiros do Império
             o urbanista uruguaio
             o religioso autonomista
             a rua que remete a Lisboa
e tudo atravessa o teu nome de cidade apostólica:

sob o signo de Saulo
anuncias o nosso caminho a Damasco
e levarás o seu nome a todos os rincões
             esta a tua vertigem
                                              clima de serra
esta a tua
                          missão

até as bromélias e as epífitas
                                             concordam
e entoam o teu
hino

 

X

incessantemente
           aqui não importa ser noite
           ou dia claro
no chiaroscuro pinta algum
Caravaggio anônimo
                                    a Paulista
é teu caminho a Damasco
                                     na América
you will prevail
                                     – as folhas mortas
estarão recolhidas amanhã
antes que as hélices dos teus helicópteros
as desfaçam
                       irei com elas para o nunca jamais
                       te abandonarei
                       como faço agora

 

XI

onze tempos de passeio redivivos
te percorro em três minutos
                                               cubos
                                               cubos
                                               cubos
folhas que se dispersam

sim vou com elas
                                    rumo ao meu santuário
                                    interior
                                    no chiaroscuro me ilumino
deslindo o que há
o agora
o agora é o que há
o onde é o agora
                                   sob os teus 
                                   cascos      




SP 17/19 VII 05

 


 

MEU DIA COM O FALCÃO

 

I

Meu dia com o falcão
começa assim:
                            um lampejo
que diviso entre prédio e bosque
e um piar inconfundível:
                                             bom dia!

Bom dia, sweet ladies, bom dia
aqui perto passou a ave
de rapina
                       deram-se conta?
ou estavam preocupadas
com a musculação glútea?

Somos grandes demais
para a fome dos falcões
inclusive por nosso derrière
avantajado e que nos ancora
no agora

                           Ele passou e piou
vi-o num relance que
não dá para esquecer
e em um minuto me imaginei
nos olhos desse outro

                            Eu cá embaixo
com uma cachorra na guia
um bípede desengonçado e uma
quadrúpede peluda:
                                      nada, nada
apetecíveis

O falcão não nos deu a mínima
seguiu a sua escrutinação
atrás de roedores
e seres inferiores a nós
na cadeia alimentar

I don’t blame him
afinal há tempos deixei de me considerar
fundamental nos ambientes onde circulo
mas queria o seu olhar
para só ver na paisagem
as coisas que me interessam

 

II

Pois, vai ficar ainda mais radical
assim como um tigre ferido
por presa de elefante não:

                 por uma palmeira
e de cara semi-encoberta
                 por essa mesma palmeira

Observe o olho do tigre:
                        um olho só
o outro está detrás do fuste
                        da palmácea
e à sombra das palmas

Mas, sim:
              este olho é como o outro
tem esta irisação acetinada
e um tanto mesmerizante
devido à sua chatoyance
de crisoberilo

Parece que detrás dele não há
alma nenhuma ou sequer
que o tigre esteja vivo

Mas está
Está vivo
E mesmo ferido

                                             pode atacar

 

III

Tigres falcões elefantes cães
esta escritura cada vez +
é bestiária
                agora passou a Kombi
com alto-falantes agudíssimos
para vender sapólios não:
políticos

           As madames glúteas
não voltearam as cabeças
por preocuparem-se com músculos
idem
          e eu me fiz de desentendido,
tão ocupado por falcões e seus efeitos
simbólicos e tigrinas
iridescências

Passou a Kombi com a propaganda política
do mensaleiro candidato a prefeito
a quem seguirei pagando o óbolo
sob forma de IPTU

Mas não neste poema
aqui eu dou as regras
e sou, como se diz, Noé

 

IV

Um tigre concentra-se nos seus desejos
o elefante não esquece e rumina
o cão é leal a seus princípios
o falcão arremete
arrisca-se
por ser o seu próprio
o arremeter

Este poema não termina
sem a menção a tais virtudes
animais
              Se tal concerto órfico
como nos quadros de Savery
for bom como coda somente
para confirmar uma exigência do dizer
em poesia

então

que se saiba ao menos
que o meu dia com o falcão
ainda não terminou



Osasco 25 VIII 012

 


 

PINA, A ABELHA E O VIDRO

 

assisti Pina antes de dormir
uma abelha veio assistir ao enunciado
do lado de fora do vidro
do tempo

lá estava Pina ao lado da piscina
do hotel em Guanajuato           cidade
onde reside la momia más pequeña del mundo
no originalíssimo museu de múmias

eu não posso ver uma piscina e
já quero logo entrar – lhe perguntei
vc não entra – won’t you come in?
os dançarinos de Wuppertal chapinhavam

Pina Bausch tinha aquele olhar
de gancho do Capitão Gancho
mesmo quando sorria           insisti &
insisti como um zângão

está bom disse e voltou com um maillot
veio chapinhar com todo mundo
nunca esquecerei desse acontecimento
na vida das minhas retinas tão fatigadas

Pina Bausch morreu há alguns anos, 3, 4
certo, fumava muito               a Shirley
também fumava muito             morreu em 2003
o Manuel, quem também estava na piscina

morreu há 11             eu tenho uma vista estupenda
deste 21º andar            hoje à distância o Jaraguá
está coberto de nuvens nuvens          e a abelha desistiu de
entrar

as múmias de Guanajuato estão hoje longe longe

quem é o próximo na linha?
a abelha que assistiu ao enunciado
do lado de fora do vidro ou
?




Osasco, 14 IX 2012


Horácio Costa


Horácio Costa é formado em Arquitetura e Urbanismo pela FAU-USP e doutorado pela Universidade Yale em 1994 com a tese José Saramago: o período formativo (Lisboa, Caminho, 1997 e, em tradução ao espanhol, Cidade do México, Fondo de Cultura Económica, 2003). Foi professor titular na Universidad Nacional Autónoma de México-UNAM até 2001 e a partir de então é livre-docente na FFLCH-USP, na área de literatura portuguesa. Publicou 13 livros de poesia no Brasil, tendo recebido o prêmio Jabuti por Bernini, em 2014.

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