Marco Buti
atacamachaça

Quando, em 1540, a primeira galeria de arte foi instalada em Antuérpia, a estampa multiplicada impressa no Ocidente já tinha pelo menos 150 anos, a imprensa de tipos móveis mais de 80, e redes de circulação legais e ilegais operavam de maneira bem organizada na Europa. A própria Antuérpia era também o maior centro de distribuição de estampas. Séculos antes das preocupações com um maior acesso à arte pela sociedade em geral, o problema já estava resolvido.
Hoje, com maior razão, a apresentação de um trabalho artístico por meios múltiplos não pode ser considerada menos importante que a exibição dos exemplares únicos em locais específicos. atacamachaça é um projeto em desenvolvimento, sem previsão de término, onde uma única matriz em metal vai sendo gravada, apagada, impressa, regravada, reimpressa. Sua apresentação se inicia na rede, sem negar a possibilidade de exposições em espaços fixos, mas ignorando onde e quando. Novas imagens serão acrescentadas à medida que forem realizadas, sem preocupação excessiva com a qualidade das digitalizações, vistas em telas das mais diferentes qualidades, de maneira incontrolável. Mais importante é a imprevisível qualidade de cada olhar.
Não há qualquer intenção de desvalorizar o contato com a obra de arte original, em local definitivo ou provisório – momento privilegiado. Mas não podemos esquecer que a imagem múltipla e móvel pode ser um original, sem remeter-se constantemente a uma ausência. Que o contato mais constante e o estudo das obras artísticas se dão muito mais através de reproduções que pelos originais. Que o primeiro contato com as artes visuais é quase sempre pela imagem multiplicada. Que a produção de originais é largamente influenciada pelas reproduções. Que não basta continuar aplicando um pensamento pré-industrial numa época pós-industrial, supondo que a obra única, esteja onde estiver, tem a potência de afetar “o público”, na verdade restrito pelas próprias condições: unicidade, lugar específico e imobilidade, sem falar nas diferenças sociais, ainda mais determinantes. Que a noção de espaço público entendido como lugar físico, começou a se tornar insuficiente com a multiplicação da imagem e do texto, há mais de seis séculos. Que o trabalho multiplicado é muito mais político. Que realmente amar a arte significa desejá-la próxima.
Com a primeira galeria, abria-se para o artista a possibilidade de apresentar seu trabalho sem depender necessariamente de encomendas. Há algum tempo, nem todos, mas grande parte, podem exibir qualquer coisa, e recebê-la a qualquer hora em qualquer lugar. Talvez agora tenha chegado para o artista o momento de reaprender a ser Qualquer Um. Será o destino da imagem artística apenas perder-se no caos de imagens, com esperanças de um olhar que a reconheça?








P.S.: Texto de Marco Buti para sua exposição "atacamachaça", inaugurada online em 06 mai 2019. O texto faz parte de Multiplicação e Miopia, disponível na íntegra em <marcobuti.com.br>. Confira também informações sobre suas exposições individuais, internacionais e prêmios em <marcobuti.com.br/curriculo/>.
Marco Buti

Marco buti (Empoli, Itália) é gravador, desenhista e professor. Muda-se para o Brasil em 1962. Gradua-se em artes plásticas pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP), em 1980. Em 1984, freqüenta o curso de litografia de Regina Silveira (1939) na ECA/USP. Entre 1986 e 1995, leciona gravura e desenho no Departamento de Artes Plásticas do Instituto de Artes da Universidade Estadual de Campinas (IA/Unicamp), em que é um dos responsáveis pela montagem do ateliê de gravura. Recebe em 1990 o prêmio aquisição na 9ª Mostra de Gravura Cidade de Curitiba. Em 1994, conclui o mestrado em artes plásticas na ECA/USP, onde, em 1995, passa a ministrar aulas de gravura e desenho. Nesse mesmo ano, publica o livro Marco Buti, Coleção Artista da USP, pela editora Edusp. Recebe o prêmio de gravura, em 1997, da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) e, em 1999, recebe o premio Internazionale di Biella per l'Incisione, em Biella, Itália. Nas décadas de 1980 e 1990, participa de diversas exposições coletivas e realiza algumas individuais, entre elas a exposição que apresenta a conclusão de sua tese de doutorado Ir, Passar, Ficar, realizada no Centro Cultural São Paulo (CCSP), em 1999.
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