Olyveira Daemon
Cinzas Sensoryais

Uma novela-turbulëncia em vinte kapítulos felydeos, narrada por Ostranenie, o angorä vivo-morto
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{ Cena um }
O versätil sol de 2301 permanece firme no firmamento. Alakazam! O sonolento sol de 2301 sangra sobre o que restou do Planalto Central. De minha posiçäo privylegiada no topo da estante de jacarandä sintëtico eu observo a poeira de ferro suspensa no ar, transformando o cerrado lä fora numa nëvoa cor de ferrugem. Que porra ë essa?! Meus bigodes kaptam a vibraçäo antes mesmo que o som se materialyze. Ë algo diferente do vento. Ë algo vindo de baixo, das rayzes profundas que perfuram o solo seco em busca de um lençol freätico que a Histöria esqueceu.
Ao meu lado, Unheimlich agita levemente suas pëtalas translücidas. O visor de quartzo akoplado ao seu adorävel vaso de cerämica deveria exibir nyveis de PH ou pedydos por mais nitrogënio, mas hoje os pixels dançam em padröes geomëtricos obsessyvos.
> Atençäo! Kuidado! 47.8525° Norte, 12.1247° Leste… Atençäo! Kuidado! > A voz de Unheimlich sai pelo alto-falante, mas näo ë a sua habytual modulaçäo de soprano etëreo. Ë um ruydo metälico, uma frequëncia que parece mastigar o silëncio da sala. Algo no subsolo estä usando suas mynimas rayzes como antena. > Atençäo! Kuidado! O sedymento ë implacävel. O sedymento ë implacävel. 47.8525° Norte, 12.1247° Leste…
Eu salto da estante. O toque de minhas patas no chäo frio de cimento queymado konfirma o que eu temia: a casa estä inquyeta. As paredes, o teto, as eskadas gemem baixynho… Sintagma, meu dono, kaminha de um lado para o outro no korredor, murmurando estruturas lögicas que hä sëculos näo fazem mais sentydo. Ele näo ouve a orquydea nem as vibraçöes do solo. Os humanos tëm essa inkapacidade seletyva de ignorar o que ë öbvio atë que o öbvio os atropele. Eu me aproxymo de Unheimlich e enkosto o nariz no vidro do seu pequeno monytor. O brilho azulado da planta reflete em meus olhos. Ela näo estä mais falando konosco. Ela estä possuyda, servyndo realmente de antena para um passado geolögico que decidyu emergir bem debaixo de nossos pës.
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{ Cena dois }
O centro da sala de jantar ë okupado por um claräo de luz gelada. Lorem Ipsum, nosso robö domëstico, cujo chassi de latäo eskovado jä viu dias melhores, estyca o peskoço hidräulico e projeta um holograma que vibra com a instabilydade da rede local.
> Atençäo, unydade familyar 104-B > entoa Lorem Ipsum, com sua voz que ressoa feito papel amassado. > Notificaçäo prioritäria da Superintendëncia de Reordenamento Geogräfico. Este perymetro foi designado como zona de eskoamento para o Canal Transcontynental Semiärido. A desokupaçäo deve okorrer em setenta e duas horas.
O caos se instala com a precisäo de uma desafynada orquestra de samambayas. Anamnese deixa cair o tablete de dados, os olhos perdydos em alguma memöria dystante que o aviso akaba de violar. Tio Obsoleto, todavya, solta uma gargalhada seca, ajustando o monöculo analögico que ele insyste em usar por puro anakronismo.
> Bobagem… Eles tentam isso a cada cinquenta anos > desdenha tio Obsoleto, kruzando os braços. > O governo ë uma ficçäo mais pobre que a nossa.
Tia Sinëdoque, por outro lado, jä estä com o bistury laser entre os dedos, analysando a estrutura esponjosa de uma das kolunas da sala.
> Se o canal passar por aqui, a parte representarä o todo > murmura ela, ignorando o perigo. > Precysamos decidyr qual pedaço desta konstruçäo merece sobrevyver num museu de ruynas & eskombros.
Os cinco filhos de Sintagma & Anamnese – Sator, Arepo, Tenet, Opera & Rotas – formam um cyrculo ao redor do holograma da Superintendëncia de Reordenamento Geogräfico, as expressöes idënticas & indecifräveis, como se estyvessem lendo o cödigo-fonte dessa burocrätica ameaça, em vez de simples palavras. Eu observo Lorem Ipsum. O robö parece estar processando algo alëm da mensagem oficyal. Seus sensores öpticos giram em direçöes opostas. Ele olha pra mim, lança uma piskadela e por um milyssegundo um erro de systema em seu visor forma o imperatyvo: K O R R A A A!
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{ Cena trës }
Vida vendaval. O cëu, que era ferrugem, torna-se breu. Uma muralha de poeira magnëtica avança pelo cerrado, engolyndo os restos de sukupira & ipës artificiays que cercam o kasaräo. “Ë o embaraçoso abraço do deserto”, como vovö Marginälia kostuma dizer enquanto eskreve notas minüsculas nas bordas de malcheyrosos livros que ninguëm mais lë.
> Executar protokolo de isolamento! > grita Sintagma, mas Lorem Ipsum jä estä se movendo sozynho.
O ar instantaneamente se torna denso, karregado de íons e do cheiro de ozönio. A eletricydade estätica eriça meu pelo, me transformando numa felpuda bola de nervos & instynto. De repente, o argumento domynante ë um estrondo de travas de titänio se enkontrando. As persyanas de polymero descem pesadamente, lakrando o kasaräo, nos isolando do mundo exteryor.
Putaquipariu. Silëncio dogmätico. Estamos mesmo trankados. Katorze konsciëncias – algumas de carne, uma de metal, uma de seiva e a minha, felyna – komprimidas no väcuo de um kasaräo que range sob a pressäo da tempestade. No canto da sala, vovö Incunäbulo kontinua embaralhando suas velhas cartas de tarö impressas em papeläo, o ünico som konstante em meio ao miüdo sibilar do vento magnëtico lä fora.
Eu me esgueyro para as sombras. Pela fresta da porta, vejo Unheimlich brilhar com uma intensydade vyolenta. A orquydea parou de ditar a mesma monötona koordenada. Agora ela emyte um ruydo rytmico, um batymento cardyaco que jamays pertencerya a uma planta. E Lorem Ipsum, parado no centro do korredor eskuro, ignora os komandos de Anamnese. O robö estä hipnotyzado, enkarando a parede, esperando que algo, ou alguëm, responda ao sinystro chamado do subsolo.
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Olyveira Daemon

Olyveira Daemon é escritor, ensaísta, antologista e coordenador de oficinas de criação literária. Publicou os romances BAMBOLEIO QUE FAZ GINGAR e SUBSOLO INFINITO e as coletâneas de contos VINTE & UM e ÀS MOSCAS ARMAS!. Das antologias que organizou destacam-se FRACTAIS TROPICAIS, de ficção científica brasileira, MUNDO-VERTIGEM, de ficção fantástica brasileira, e as antologias da geração 90 e da geração zero zero. Mantém uma página mensal no jornal Rascunho, intitulada Simetrias dissonantes. Venceu duas vezes o Prêmio Casa de las Américas, em 1995 e 2011.
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