poesia

Amador Ribeiro Neto

Cópula de códigos

 

 


Tela 21, 2024. Amador Ribeiro Neto

 

saudades

assim
saudades sim
simples
como um brinco tupiniquim
um coco de roda
cirandas voltas de tu em mim

 


 

o mestre 

para joão alexandre barbosa, in memoriam

 

1

joão não acordou hoje
me disseram que ele não acorda mais

[                                                ]

meu coração est(r)alou triste

profunda
profundamente

joão foi embora mas
joão não vai embora
 
dicionário de mil línguas
biblioteca analógico-digital de zil linguagens
 
forma inimitável
opus de todos os anos &
 
leitura da vida
todacrítica

entre livros
sem intervalo


2

joão não acordou da sesta

mas de seus músculos jorram
massa de sangue
 
inteligência
vidafetiva do timoneiro que ele é

guia que um dia nos guiou
nos guia          &

nos tempos futuros nos guiará
circuladô de fulô
 
joão voou pras bandas
de outro joão
 
do mesmo haroldo
do mesmo sebastião
 
joão reluz agorinha na gema
dos grandes sertões-galáxias

&
miramar ri
da comédia intelectual
 
da vida
(in)finda



3

joão não acordou hoje

m-m-meus olhosleitores
vêem : : ele anda para as sagas
 
de corações-e-cérebros-joão
pega um lápis de um outro que ele
 
e oferta-nos brasil brasa braseiro
joão ara rara arara jipe 4x4 e iPod

[       senhas  ao  ar
                         
                                                            [

: timbre fabro
: exato traduttore
: vidaobraum
 
joão
mutatis mutandis
 
: :
 
olimpoesiagora

 


 

porretc

para décio pignatari, in memoriam

 


1
 
ponta que lança high-tec
designer da poesia led
 
life
na fogueira das signagens
 
orgasm organism
cópula de códigos
 
na velhalagoa
mergulha a agulha fatal
 
tua
língua
 
campos de visão  
visão de campos
 
lance de lince
do olho semiótico
 
& festafeira
na puc paulista
 
poesia porreta
poetc

2
 
o cio
de décio
 
exu
berância
 
horror
vacui

3
 
a falta
:
 
leão
de areia

 


 

hc foi para o céu

 

hc foi para o cio dos anjos
(barroco / rilke / augusto)
 
para o sol de oswald malandra
mente armado numa roda de bambas
 
foi para o céu o sal do xadrez
das estrelas
 
para o norte das galáxias efervescentes
 
hc dissolve-se em salvas
fogos feitos fios
lânguidos aços de eros &(ducado)
dos 5 sentidos
 
signância metamorfoseante
brilha marte pós-morte
brilha martagões em filigranas
aos olhos do leitor
triste-crisantempo-carne
 
pero nunca never more jamais
órfãos
 
têm & temos todos
as trilhas
 
                  teus livrosvida    
 
                                                 ô meu

 


 

não há


não há querubim
nem curumim
 
não há exu
nem jurema
 
não há shiva
nem catimbó
 
não há buda
nem alá
 
não há padre
pastor pai de santo
 
rabino
ou aiotolá
 
não há xamã
nem oxalá
 
não há osho rajneesh
nem hare krishna
 
não há santo daime
macumba ou candomblé
 
não há xamanismo
ou xintoísmo
 
pajelança
catimbó
 
não há seicho-no-iê
nem umbanda
 
não há maçonaria
taoísmo ou hinduísmo
 
não há marmonismo
ou neopaganismo
 
política
ou arte
 
hipnotismo
ou psicanálise
 
não há agnosticismo
nem ateísmo
 
não há sertralina
nem fluoxetina
nitalopram
ou escitalopram
 
não há trazodona
nem netazodona
 
mirtazinpina
ou venlafaxina
 
tranilcipromina
nem duloxetina
 
não há bromazepam
ou alprazolam
 
clonazepam
ou diazepam
 
lorazepam
nem cloxazolam
 
muito menos melissa
camomila erva-doce
 
erva-de-são-joão
passiflora ou valeriana
 
florais de bach
nem cozinha ayurveda
 
não há massagem
nem ioga
 
musicoterapia aromaterapia
ou tai-chi
 
veganismo
ou macrobiótica
 
soja gergelim
nozes castanhas aipim
 
não há frango peixe peru
nem queijo iogurte tofu
 
caminhada academia natação
pilates  praia meditação
 
eletrochoque
nem acupuntura
 
nem deus
nem dionísio
 
nem diabo
nem o cão
 
não há lítio
nem morfina
 
não
há
 
tudo
é
luto
 
tudo
é
litígio
 
tudo
é
perda
 
tudo
é
dor de existir

ultracansaço de ser
completa & absolutamente
 
álvarodecampos
emjoãopessoademente

 


 

   corvo joão cabral



nunca
nem morre e(ver)
pois sendo um
&
de cuja espécie
não existe algum
vive
certo sim certo não
 
aqui ali
na contramão

 


 

escassez

 

falta dinheiro & falta
falta um poema
 
aqui
no meu bolso
 
com tutano medula
& osso
 
poucos
bem loucos
 
raros poetas
falam disto
 
muito
poucos

 


 

rarefação 

 

1
 
de onde vem a poesia
sei
 
de onde vem a palavra
não


2
 
de onde vem a poesia
não
 
de onde vem a palavra
sei

 




SEM
 
ANJOS
 
E
 
CAMPOS
 
NEM
 
AUGUSTO


SEM

CAMPOS

E

ESPAÇOS
 
NEM
 
CAETANO


SEM

CAMPOS

E

CAETANO

NEM

EU


COM

CAETANO

E

AUGUSTO

NEM

DEUS

 


 

pedra do ingá

 

na

pe

 

dra

do

 

in

 gá

 

vi

lá

 

o

mar

 

co

de

 

um

ri

 

o

gra

 

fi

te

 

que

o

 

 tem

po

 

pi

chou

 


 

rita lee 

 

filho acha que é pai & mãe &
que pai & mãe já de cara eram

erram
um oráculo só-rdido

desentendido do tempo
filho é difícil

gosta de ostra
cisma coisas

cisca loisas
esquece chave

acaba mesada
pede carro

filho enche o tanque da gente
de álcool

& era
gasolina

 

 

repe(n)te

quero me casar contigo / não me abandones / tenha compaixão
(carlos alberto, didiu e claudio moreno)

 

o cabra
rimava
tzvestanía
 
toda
vez
que
eu
dizia

– mete
maria

 


 

no forró


bebo danço voo
tudo tanto feliz
 
que nem
ouso dizer
 
: mônadas
:  leibniz

 

          


Amador Ribeiro Neto


Amador RIbeiro Neto (Caconde-SP, 1953). Radicado em João Pessoa-PB já trinta e cinco anos. Poeta, crítico literário, artista visual. Autor de Poemas do Amor (Cobalto, 2025), Poemail (Patuá, 2019), Barrocidade (Landy, 2003) e livros de crítica.

← voltar

Fale com noosfera

Comentários, sugestões, propostas de colaboração: escreva pra gente.

redes sociais