Lucas Villa
Densa Imensidade

9.
Rocío deixa sobre a mesa um prato branco. Sobre o prato branco estão quatro croquetas de jamón ibérico. Penso se devo pedir a Rocío, garçonete mui simpática e roliça que é, uma taça de vinho da casa, mas venho evitando os vinhos, mesmo os da casa. Peço água. Sin gas. Recebo alegre um sorriso alegre da garçonete roliça que não faço ideia se está feliz. Penso que também não estou necessariamente feliz, mas retribuo o sorriso alegre, porquanto não é mesmo necessário estar feliz para estar contente. Estou contente com minhas croquetas, porque tenho fome – embora não tenha escolhido tê-la –, mas estou sobretudo contente com os sorrisos roliços de Rocío, que traz grudado em si este nome tão gracioso e que, em português, significa orvalho.
Curiosa coisa é a fome, entre os tantos ímpetos do corpo, e curiosa coisa é também a sensação, entre as tantas sensações, de sentir saciada a fome. Houve tempo vário em que vivi para os prazeres e que, entre os prazeres para os quais vivi, comer era um dos mais queridos. Havia também, é claro, o prazer do vinho e de todas as coisas que entorpecem. Entorpecer-me era dissolver as cânulas que transportavam uma realidade líquida que, em si mesma, não tinha forma; um mundo que, como a água, adquiria as dimensões do vaso quando era posto no vaso, e que se fosse posto na garrafa, adquiria as dimensões da garrafa. E quando entorpecido, eu desvendava as ilusões dos vasos e das garrafas, e mergulhava no universo aquoso e sem bordas, carente de formas verdadeiras, e sentia-o em cada dobra do meu corpo, como se acariciasse cada dobra do meu corpo e cada pequeno espaço do meu corpo que as mãos e os dedos não alcançam. E era porque gostava das carícias desse mundo líquido que eu vivia quase sempre bêbado, porquanto estar bêbado era livrar-me solto das categorias primeiras da percepção, e era abandonar espaço e tempo e causalidade, e era trocar aquelas coisas todas pela inocência boba e zombeteira da criança que brinca de não crer em nada, mas que não é cética, porque nem mesmo sabe o que é um cético. E sim, há algo que os céticos declarados sabem, embora declarem não saber de nada. Os céticos declarados sabem que são céticos – e o declaram.
Enquanto penso nesse mundo sem forma que é como a água, Rocío traz-me a água sin gas, e vivo o estranhamento que nunca me escapa sempre que me apercebo de que, no espanhol, para o substantivo água se utiliza o artigo masculino: el agua. Rocío ainda sorri, em suas bochechas rosadas e redondas, e parece que quer dizer-me algo. Eu quero dizer muitas coisas a Rocío. Quero dizer-lhe que é linda e que seu nome é lindo. Quero dizer-lhe que sempre achei lindas as mulheres gordas e que a realidade é líquida como o orvalho que lhe dá nome e quero convidá-la a tomar vinho e a dissolver as categorias da percepção. Quero pedir-lhe que, sendo orvalho e sendo água, deixe-me mergulhar-lhe e acaricie-me o corpo em todas as partes e dobras que as mãos e os dedos das mãos não alcançam.
Eu não lhe digo nada. Ela me diz palavras e as palavras que ela me diz são ¿eres Humberto Monteiro? E as palavras que respondo são no, no lo soy. E o leitor deve estar a pensar que respondi que não sou Humberto Monteiro porque não acredito que exista um eu que se possa chamar Humberto Monteiro e, embora isso seja verdade, não foi em razão desta verdade que respondi assim. Ela então me diz como pareço-me com o autor que escreveu o livro que inspirou seu filme preferido e eu sofro porque me lembro o quanto odeio aquele filme. No início, com algum esforço, eu até conseguia gostar do livro que havia escrito. Odiei tanto o filme que, sem poder evitar, passei a odiar também o livro. Odiei tanto o filme e o livro que, sem poder evitar, odiei também o autor do livro. E o autor do livro era este escritor Humberto Monteiro, que sói de ser eu mesmo, e odiei tanto este eu mesmo que precisei convencer-me radicalmente de sua inexistência, levando às últimas consequências uma crença que há muito já intuía e que é a já sabida crença de que não se pode crer nos eus, nos tus, nos eles e nos nós, porquanto nenhum deles efetivamente existe como unidade autônoma e fixa. Eu intuía essa descrença nos eus de modo heraclítico, abstrato e bastante leve: tudo flui, nunca somos os mesmos, etc. Levei essa intuição às suas vias mais concretas e mais radicais, e então passei a descrer de mim mesmo em um sentido novo: não porque estivesse sempre mudando, mas porque todas as coisas são sempre uma mesma coisa e nenhuma mudança existe.
Rocío fala com entusiasmo. Fala com entusiasmo porque fala sobre seu filme preferido, que é o filme que mais odeio. Sua boca se move, mas eu já não posso ouvir palavra. Sinto-me estranho. Tento disfarçar. Sendo estranho, não gostaria de parecer estranho, porquanto nunca é bom parecer ser o que se é. Rocío é gorda e sempre achei belas as mulheres gordas. Eu mesmo gostaria de ser gordo, se pudesse sê-lo. Não alcanço ser gordo, ainda que o queira e tente, porque tenho pequeno o estômago e porque meu modo de pensar queima muitas calorias. Por isso evito pensar, porque tento ser gordo. Interessei-me por Rocío, mas já me desinteresso dela. Ao desacreditar dos eus, desacreditei das coisas e das pessoas. Ao desacreditar das coisas e das pessoas, desinteressei-me das coisas e das pessoas. Rocío me interessa, até que já não me interessa mais. Granada me interessa, até que já não me interessa mais. Assim também meu livro: interessou-me, até que não me interessou mais. Assim com o dinheiro e as coisas que compra o dinheiro: interessavam-me, até que não me interessavam mais. Assim seria com a esposa que nunca tive, se a tivesse: interessar-me-ia, mas só até que não me interessasse mais. Mas nunca tive esposas, embora ainda tenha dinheiros. Tenho também algumas coisas, principalmente se consideramos que os pensamentos também são coisas.
Perco a fome. Desinteresso-me das croquetas, da agua sin gas e de Rocío. Desinteresso-me do espetáculo de flamenco, da Serra Nevada e de Granada. Peço a conta a Rocío e já não consigo retribuir o sorriso alegre e roliço que recebo. Desinteresso-me de Rocío. Deixo o restaurante. Não estou contente.
Lucas Villa

Lucas Villa é poeta, romancista, advogado e filósofo. Pós-Doutorado pela Universität Hamburg. Doutor em Direito, Mestre em Filosofia. Professor da Universidade Federal do Piauí. Conselheiro Federal da OAB.
Fale com noosfera
Comentários, sugestões, propostas de colaboração: escreva pra gente.