prosa

Carlos Kiffer

Domingo no parque

 

 

Uma gritaria sem palavras, sem nada além dos jogos de bola com as bocas arreganhadas e risonhas. Às vezes bravas. Às vezes cheias de palavrões. Coisas que a tia de cabelos longos e olhos verdes não deixava ninguém falar. Senão o vô de cara comprida e olhos azuis de piscina deitava as mãos grandes e magras em palmadas doidas. “O rei da brincadeira, ê José! O rei da confusão, ê João!” Eu e Mano. A cada gritaria sem palavras e a cada jogo de bola cheio de xingamentos, vinha a tia com calça boca de sino e sua canção apartando as brigas. Naquela época os meninos só conheciam os olhos biliosos do futebol e das partidas de rua. Todo mundo sabia tudo de bola. Eu não. O rei da brincadeira. Ê José! Mano sabia. O rei da confusão. Ê João! Mandava eu jogar de beque. “Bico na canela. Não deixa ninguém passar!”. Com minha bota ortopé, seguia à risca suas ordens. As bocas arreganhadas e bravas só esperando a intervenção da tia-de-olhos-verdes-e-calça-boca-de-sino. “O rei da confusão, ê João!” Olhando de baixo, parecia uma atriz de novela. Sua voz parava tudo. Um segundo suspenso no ar, evitando a mão pesada do vô. Naquele dia não haveria briga. Não perderíamos a festa por nada. A família toda em casa. Domingo era dia de jogo. A casa, a rua, a bola, tudo era novo. Os meninos não. A gritaria sem palavras e as bocas arreganhadas eram velhas conhecidas. Mano e eu, onde estivéssemos mudaria pouco. Sobre o móvel da sala, solene, a TV preto e branco com bombril amassado nas antenas. Não podia haver interferência. Não podia haver falhas. Era dia de final.

O vô mexia nas hastes buscando a melhor posição. Mano e eu começamos uma peleja qualquer. “O rei da confusão, ê João!” Olhando em nossa direção, a tia-de-olhos-verdes, como os meus, interrompeu o ato. Conhecíamos o código. E as regras do jogo. Eu era beque, não podia deixar passar nada ou ninguém. Todos ali em volta da TV. Menos o pai e a mãe. Andavam distantes, sumidos. Não entendia o motivo. Perguntava a Mano, mas dava de ombros. Só sobravam seus olhos molengas, castanhos, parados em algum ponto fixo e distante. Diferentes dos olhos da tia. Perguntava à tia-de-olhos-como-os-meus. “Viajando, meu filho”, desconversava. Mano e eu. E a tia-de-olhos-verdes e o vô-de-olhos-azuis-e-cara-magra sentado em sua poltrona na frente da TV. Como era magro, o vô! Cabelos grisalhos alisados com brilhantina. Óculos de aro de tartaruga quadrados. Lentes escuras. Lembrava as pessoas solenes da televisão que víamos à noite. Mano e eu. E uma saudade no peito. 

Naquele dia tudo seria diferente. Bola na rua, gritaria sem palavras, bocas arreganhadas, mas risonhas. Sem xingamentos. Sem brigas. Sem canção. Só a TV com bombril nas antenas. E a família reunida na sala. Menos o pai e a mãe. Eu e Mano, os reis da brincadeira e da confusão. Ê José! Ê João! Procurei pela tia. Não sabia exatamente o que queria, mas queria ver seus olhos, perceber um sorriso de canto de boca, uma eletricidade qualquer que corresse meu corpo igual a daquele dia. Não queria bombril. Queria algum sinal, uma mensagem que fosse, mesmo que uma interferência feito a tela da televisão. Ou pequenas falhas e fissuras por onde pudesse enxergar um código diferente, que não fosse a canção de apartar brigas. Onde estaria minha mãe? E meu pai? Tinha tanta alegria naquele domingo! Bola, criançada, seleção, risos, gritaria. E futebol, claro. “Copa do mundo” diziam. “Pelé, Jairzinho, Rivelino, Tostão”, falavam. Cachorro-quente e guaraná, eu ouvia. “Ouviru-du-piranga-asmargem-plácida …” Mano e eu, de pé com as mãos no peito. O meu, pequenino e apertado. Queria saber como andava o de Mano, de olhos-molengas-castanhos-e-distantes. Procurei a tia. De pé também, encostada no batente da porta da cozinha. A perna direita cruzada na frente, a ponta do sapato de saltos grossos apoiada no chão. Mirando pra baixo, não parecia ver nada. Busquei. Não achei seus olhos-verdes-iguais-aos-meus. Será que estava chorando? Como pode? Procurei o vô. Sentado em sua poltrona, óculos escuros escondendo a piscina, perna direita sobre o assento. Nenhum dos  dois tinha as mãos no peito. Nenhum dos dois cantava “ouviro-do-piranga”. 

“Gerson, Carlos Alberto, Piazza, Clodoaldo, Félix” escalavam. Gato Felix, guaraná, cachorro quente, eu ouvia. Mano e eu. E Pelé. “É gooool!” Berravam. O outro time fez um gol também. O vô acertou o bombril da antena. “Vamos ganhar! Calma, gente!” Meu peito ainda menor e apertado. Como estaria o de Mano? “Se o Brasil ganhar vamos ao parque”. Uma bomba do Gerson. “É goooool!”. Vai ter parque, pensei, abraçado a Mano e pulando. Queria abraçar a tia de olhos-verdes-iguais-aos-meus. Em meu peito pequenino, talvez afastasse o aperto que sentia. Procurei por ela. Não a vi. Não encontrei seus olhos verdes. Busquei o vô. Continuava sentado em sua poltrona. Os óculos escuros ocultando tudo. Puxou minha camisa e com os braços magros me abraçou de leve, passou a mão em meus cabelos e me deu um beijo na testa. Mano pulava. Eu e mano. “Gooooool” de novo. Nova comemoração. Nada da tia. Ou de seus olhos verdes. Mal deu tempo de procurar por ela. Todos vidrados na TV, mesmo com os sinais de interferência. Tostão passa pra Clodoaldo. Clodoaldo pra Rivelino. Rivelino pra Jairzinho. Jairzinho pra Pelé. Em minha cabeça, Pelé faria o gol. Ele era o rei. Não sabia nada de futebol. O rei da brincadeira. Ê José! Mano sabia. O rei da confusão. Ê João! Mandava eu jogar de beque com minha bota ortopé. Entendia de bocas arreganhadas e bravas esperando a tia-de-olhos-verdes-calça-boca-de-sino entoar o código. O gol tinha que ser dele. Não entendi quando o rei deu uma paradinha olhando pra bola. Não levantou a cabeça. Mirava pra baixo, não parecia ver nada. Deu um empurrão na bola. Olhando a TV, parecia que a pelota corria em direção ao vazio. Ao nada. Não havia ninguém. Eu não sabia nada de futebol. O capitão chegou por trás e enfiou o pé. “Goooool”. Entendi. O rei viu tudo, mesmo olhando pra baixo. Aquele dia foi diferente. 

Queria tanto abraçar a tia. Não a vi. Nem seus olhos. Notei Mano, pulando a meu lado. Nos abraçamos com força, “Goooooool!” Naquele dia não teve briga. E aprendi tudo sobre o futebol. Sobre Mano e eu. Sobre José e João! Sobre o que estivera procurando nos olhos dela. E que ainda parceia procurar com o peito pequenino e apertado. Com os olhos verdes mais tristes do mundo. Compreendi tudo claramente, como se fossem dessas coisas que se aprende para sempre. E desde sempre. E que depois as palavras não conseguem explicar. Teve parque, sim. Mas naquele dia joguei de cabeça baixa, tentando ver tudo pelo canto dos olhos. Como o rei. Como a tia. Como quem sabe quem vem de longe, mesmo que todos os outros só vissem a taça. Eu só via o vazio ao redor. 


Carlos Kiffer


Nasceu em Niterói e cresceu atento às histórias que as pessoas carregam sem perceber. Médico infectologista, professor da Escola Paulista de Medicina e pesquisador, desde 2005 dedica-se de forma mais intensa à escrita. Publicou contos na revista Piauí e nas coletâneas Seiva e Risco (Ed. Terracota, 2010) e História Íntima da Leitura (Ed. Vagamundo/ProAC, 2012), além do livro Desvio do Equilíbrio (Ed. Caros Amigos/ProAC, 2011). Teve o conto A Invenção de C. adaptado para o teatro. É idealizador, roteirista e entrevistador do podcast e videocast Efeito Colateral (@podcastefeitocolateral), sobre o encontro entre arte e ciência. Participou de projetos de cuidado e educação em populações vulneráveis, em cidades e na floresta amazônica. Desde 2019 mantém o perfil @contoseretalhos, composto de pequenas narrativas entre a memória e a ficção.

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