poesia

Paulo D'auria

Em algum lugar no oceano

 

 


Fotografia de Paulo D'auria



I

 

um coração velho
é uma caixa de sapatos
cheia de pedras

pão esquecido no cesto
chuva na calçada
que não escoa
(e o sol secando devagar)

um coração velho
é peixe de aquário na poça
(e o sol secando devagar)

tv em preto e branco
cheia de fantasmas
palha de aço na antena
toca-discos pulando e repetindo
pulando e repet e repet e repet
a mesma sempre meia palavra

porta fechada janela
aberta fachada baça
pássaro olhando
o horizonte longe vazio
e o medo de cair
do fio desencapado

um coração velho
é criança no balanço
sem mão que empurre
e ampare

um coração velho
é só carne
amassada
em pacote de pele lassa
desarranjando-
        se 

 


 

II

 

em algum lugar no oceano
pacífico
um abismo
de onze mil metros
em meu peito também 

onde o sol não alcança
peixes e polvos
— eu
     não sei nadar


na cordilheira entre
o nepal e o tibete essas
montanhas mais altas
em meus olhos também 

abutres, leopardos
monges, alpinistas
sonhos
— eu
      não sei voar

gente parece
criatura plana
mas carece

microscópios
e lunetas
pra desvendar 

(ontem dei oi para um vizinho e abriu-se
um mundo
ontem
o abraço apertado em um amigo mas
era um planeta distante)

— para o amanhã não planejo mais
     esperanças vou viver de instante

 


 

III

 

A quem interessar possa

 

um prédio abandonado, estruturas à mostra
uma cidade nova, varrendo as sobras
um cachorro sem dono, urticárias à mostra
uma noite de inverno, o abraço escondido

muros de vidro
olhares idem
canetas de ouro
apupos e flashes

concerto e desconserto
nem só o que se planta dá
lembro aos senhores caminha
que a erva daninha
pode matar o enxerto

 


 

IV

 

a barbárie bebe na nossa sede
a barbárie não sossega
come da nossa fome

 

a barbárie é uma sombra
um não-ser
um corpo-colagem de nossos corpos

 

não é um rosto
um monstro

é um pensamento
um clube
se pá
um spa
exclusivo

 

a barbárie é a massagem
o deputado o advogado
a assessoria de imprensa

 

a barbárie descansa na nossa insônia
nunca dorme
a barbárie raciocina
calcula
e avança

 

a barbárie é um cão treinado
ataca
mas não senta
não rola
não quer biscoito

 

ela quer é mais

 

ri a barbárie rosna
e morde

 

na cara

 


 

V

 

Métrica

 

bu / rroes / tú / pi / doa / ssa / ssi / no
an / tai / dió / ta / ea / ni / mal 
li / xoim / be / cil / in / ca / paz 
e / ner / gú / me / no / bo / çal 
tras / te / tris / te / ca / pa / taz 
és / ca / pa / cho / pu / xa / sa / co
pu / to / ca / pi / tão / do / mal
ra / to / ca / pi / tão / do / ma / to


Paulo D'auria


Paulo D'auria é formado em História pela FFLCH-USP. Tem 13 livros publicados, dentre eles, As novas aventuras de Guaracy, finalista do Prêmio Jabuti 2019 na categoria Juvenil. Está nos “Poetas do Tietê” desde 2008, coletivo com o qual realiza saraus de rua e saraus e oficinas de escrita em escolas públicas, bibliotecas, penitenciárias adultas e Fundações CASA.

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