poesia

Claudio Daniel

Máscaras poéticas

 

 

 

 

I 

RADOVAN IVSIC

Para Eclair Antônio Almeida Filho

 

O amor é uma língua estrangeira.
Foi assim que disseram
os poetas.
Língua-
metamorfose:
seios são flores
que cantam;
coxas são peixes
azul-prateados;
vulva é o espaço
entre as estrelas.
As cores me reinventam
ao contrário.
Dos calcanhares
aos dedos
dos dedos
às unhas de terra.
é sempre a mesma
obsessão.
Minha mulher-peixe-pássaro!
Apenas ela reinventa
os vulcões.
Pousa a montanha
em meus lábios
e diz: marche!
Ela é um mar de cor indefinida
e por isso mesmo
caminha sobre as nuvens.
Mas nada disso é real:
só existe a pele sobre a pele;
só existe as minhas mãos
em teus cabelos;
só existe o instante único
em que o infinito vai além do infinito. 

 


 

II

 

VASKO POPA

Para Aleksandar Jovanovic

 

Dentro do escuro;
não, dentro dos fumos
da noite; não, dentro
do último útero da terra.
Lá, onde a boca da noite
beija a boca do nada
com dez mil facas de aço.
Pode ser que você veja
o olho amarelo da solidão
ou a sobrancelha da lua.
Pode ser que você veja
o olho do dragão, olhiazul
olho cego como os pés da Morte.
Vivemos numa era de caos
e matança, camarada Vasko;
e hoje como ontem, peixes
não riem, flutuam mortos
nas águas de mercúrio. 
Só temos a poesia, camarada;
flor de névoa, flor-da-abissínia
que nos consola, longos dedos
da meia-noite; longos dedos
da mulher nua, que nos acaricia;
longos dedos da desmemória
para esquecermos de tanto horror
mesmo que por um breve instante:
enquanto se aram os espelhos
com cavalos de oito patas.
Tudo migalha-despenhadeiro:
e apesar de tudo cantamos;
e apesar de tudo amamos;
e apesar de tudo lutamos
-- voo de tentilhões,  limalha
de cristal vibrada no desmundo.

 


 

III

 

GUENÁDI AIGUI

Para Boris Schnaiderman & Jerusa Pires Ferreira

 

Sono-palavra, sono-refugo, sono-pesadelo
corvo feito de mileumcorvos
-- um corvo
dois corvos
cinco corvos
vinte corvos
mileum corvos --
crocitando fêmures;
bailarina russa dança sem pernas
num teatro feito
de
ásperas peles
que
doem notas musicais
se
pronunciadas
em
voz alta;
bailarina russa dança sem olhos
para não ver essa triste época
essa catedral
escura
feita de pedras tumulares
essa imundície.

Olho-de-água
olho-de-pedra
olho-de-zinco
olho-de-pétala
cinco olhos
 vinte olhos
mileumolhos que
não veem
morteiro bazuca míssil drone.
Onde está o cão que corre
atrás dos celeiros?
Onde estão a rosa do silêncio
e o coração de qualquer
árvore única?
Onde está 
o
-- não:
o não; o não;
o não;
tempo deslabiado desvertebrado
exaurido no exílio êxodo excêntrico nada.
Zul, filho do azul
Elo, filho do amarelo
Erde, filho do Verde
Anco, filho do Branco
personagens de minha perplexidade.

 


 

IV

 

PAUL CELAN

Para João Barrento

 

Repousa na palavra, na memória.
Em um olhar-papoula.
Rubro como o sexo aberto
de uma flor.
Sim, queremos estar
nus
à beira de um abismo
que é noite
e navalha
(é a hora do lobisomem,
dos caninos
da água de cântaro
que bebo
em tua boca).
Tempo é um círculo vermelho
que gira
e gira.
Tempo é uma boca aberta
cheia de imagens.
Nossa Pequena Realidade
doi
e nos ameaça
com a loucura.
Estamos sós
com nossas lembranças:
bem-vindos
ao inferno
(Dante será nosso guia).
Viver a vida
uma por vez
sem desejar a próxima.
Sem lamentar o que ficou.
Sem jogar-se ao Sena.
Sim, porque os tigres
caçam
o dia.
Escrevo teu nome
e sigo meus passos
na areia fina
a  oeste de
qualquer suposição.
O peso
de um corpo
em meu corpo:
esta é a nossa Grande Realidade.
O tempo
é um enigma
egípcio
(ou maia?).
Que não deciframos;
que não ousamos decifrar.
Isto é apenas um poema:
por isso mesmo é perigosíssimo.

 


 

V

 

HERBERTO HELDER

 

Cores desentranhadas a seco.
Mandíbulas.
Ombros, pés.
Ela está deitada numa hora do relógio.
Seios, cabelos.
Uma peça para cravo de Bach.
Dentes, braços.
Porque tudo é matemática e loucura
como a música e o amor.
Boca, joelhos.
Cegueira é ver-se no espelho.
É não ver o sentido.
Sei que existe a pedra, o gato, o ruído.
Sei que existe a casa, o peixe, a bomba.
E busco a mulher-palavra.
Mulher-pássaro.
Mulher-sentido.
Que eu possa amar
como quem nomeia uma estrela
recém-descoberta.
No fundo da garganta
há alguém que canta e encanta.
Há talvez uma tesoura
que corta o passado em mil pedaços.
Há talvez um rosa-peixe
como ideia-fixa.
Há uma bússola-vulva que me leva
para fora de mim
e para dentro de mim
apontando não sentido ou sentidos
mas a grama o lago a pétala
o estrondo o rio a montanha
a águia a palavra o apocalipse. 






VI

 

CLAUDIO DANIEL

(Poema para os meus 60 anos)

 

Corpo pesado de pensamentos
que já pertencem
a outra órbita;
e de uma estrela a outra esfera
do lobo noturno
ao leopardo
labirintos de ilhas
olhos, farripas
salamandras
unhas tortas.
Sombra, esta sombra,
aquela, do outro que fui
e não fui, que sonhei
e não sonhei; sombra
que anda à reboque
de livros, memórias
paisagens, estátuas
de budas e boddhisattvas;
sombra à margem
dos retratos
da noite íntima ao escuro
inumerável, rusgas
de aranhas invisíveis.
Este coração que por si mesmo
declarou-se Lênin
acelerado ao infinito.
Esta mente que por si mesma
declarou-se poesia
e lutas com armas japonesas.
Sim, há um cinema mental
onde há templos, jardins
e trilhas de mata verde-escura
cachoeiras, rios e um inesperado
voo de asas amarelas.
Há uma mulher que eu amo 
mulher una e múltipla
sempre comigo e dentro de mim
imaginada por mim.
Há os instrumentos de sono
e esquecimento; e um urro
dentro de um urro, garra
dentro de garra, que me faz
sentir-me vivo a cada minuto
antes de minha inevitável morte.


Claudio Daniel


Claudio Daniel é poeta, romancista, crítico literário e professor de literatura. Nasceu em 1962, na cidade de São Paulo (SP). Cursou o mestrado e o doutorado em Literatura Portuguesa na Universidade de São Paulo (USP). Realizou o pós-doutoramento em Teoria Literária pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Foi diretor adjunto da Casa das Rosas, Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura, curador de Literatura no Centro Cultural São Paulo e colunista da revista CULT. Foi editor, por vinte anos, da revista eletrônica Zunái. Atualmente, ministra aulas online de criação literária no Laboratório de Criação Poética, é editor do Banquete, Jornal de Resenhas e Crítica Literária e é um dos coordenadores do programa Poesia na veia, transmitido pelo Youtube.  Publicou diversos livros de poesia, ensaio e ficção, entre eles Cadernos bestiais: breviário da tragédia brasileira, Portão 7, Marabô Obatalá, Sete olhos & outros poemas e Dialeto açafrão (sob a lua de Gaza), todos de poesia, o livro de contos Romanceiro de Dona Virgo Re os romances Mojubá e A casa das encantadas.

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