Elcio Fonseca
Máximo de Mínimos

Seleção e organização de Abel Coelho.
1. rua Xavier de Toledo
Era um menino
que vendia amendoim
que vendia
que vendia
que vendia
amendoim.
Era um menino
que trazia no rosto
um sorriso sem fim.
Era um menino
que vendia amendoim.
E que trazia no peito
a mesma pena
eu dele,
ele de mim.
2. máximo de mínimos
menos escrevo
mais tempo olho
para dentro do poema
meço remeço
cada lado
cada lasca
da palavra
enquanto isso
o tempo traspassa
limpo
o problema
sobra
o poema
3. é preciso fazer um poema
é preciso fazer um poema
para rachar rochas
pois a descrevê-las
já temos a prosa
é preciso um poema
para fundir o diamante
a ciência se ocupa
do instável instante
um poema é preciso
para poder acreditar
a metafísica fixa
o que mais se aventar
um poema é preciso
para escorraçar o escuro
é preciso fazer um poema
para iluminar o futuro

4.
SÓ O
CAOS
SACA O
ACASO 4
5.
o poeta sossobra
so sobra
a obra
6. eu te espero
eu te espero
como um árabe no deserto
eu te espero
como um moisés, um jó, um ló
eu te espero
como um pão
eu te espero
como uma unção
eu te espero
com a extrema calma
de quem carrega
a eternidade
na alma
7. libélulas
Para Aurélio Buarque de Hollanda Ferreira
caem
leves
como
a letra
livre
do vôo
ao mergulho
na flor d'água
lavabunda
cumprindo seu
destino
tipográfico
elegância
leveza
liberdade
sobre eles
construirei
meus
castelos
8. ente
o oleiro
molda
o vazio
e cria
dessa
forma
o jarro
que
recebe
água
limpa
que
abriga
finas
flores
e assim
preenche
essa
manhã
de perdida
matinada
para
que nos
encontremos
plenos
diante
de seu
nada
9. odisséia mínima
ao vencedor
as batalhas
aos campeões
a caminhada
aos fortes
mais nortes
aos frios
os navios
nunca se chega
ao fim no fim
depois de tudo
a névoa do nada
a lhe lamber
as feridas
aos que chegam
restam apenas
as saídas
10. limiar
escrevo para ouvir
o pulso da palavra
o plasma do grafema
na soleira do escuro
o sussuro do futuro
à espera do poema
escrevo no que passo
escrevo no que penso
escrevo para chegar
ao silêncio
11. teorema #3
um nome
é sempre mais
do que
pensais
do nome
sai o homem
a vida
vai atrás
12. flama
é preciso
dizer não
é urgente
amar mais
é premente
é pra já
ou jamais
13. lavra
pedras
quebradas
no degelo
espelho
na água da
prosa
narcísifo
na roça
de rosa
14. serenado
e sigo assim
tecendo tramas
das ramas
desse plantio
tardio
volto ao chão
onde jaz
meu umbigo
colho o pão
da mão do amigo
quanto mais
serenos
mais ando
querendo
menos
Fontes:
Poenas 1. 2, e 7 in Maximo de Minimos, Par&CiaLimitada, São Paulo, 2006, 126 p.
Poenas 4 e 5 in Sete Suítes para Desesperar o Milênio, Par&CiaLimitada, São Paulo, 2021, 222 p.
Poena 12 in Particípio Presente, PoesiaViva Editora, São Paulo, 2025, 176 p.
Poenas 3, 6, 8, 9, 10, 11, 13 e 14 in Menos, PoesiaViva Editora, São Paulo, 2026, 426 p.
Elcio Fonseca

Elcio Fonseca é poeta, escritor e jornalista. Tem uma longa carreira na comunicação como profissional de criação, tendo trabalhado em alguma das maiores agências e veículos do país. Tem extensa atuação na área de branding e design, tendo criado marcas para mais de uma centena de empresas e instituições, entre elas a identidade visual do Portal Noosfera. Criou vários projetos artísticos, entre cantatas para coral, teatro, saraus, intervenções em espaços públicos. Com o poeta Abel Coelho fundou um selo de poesia, outro de objetos poéticos. Atua como palestrante em escolas e instituições e mantém um trabalho de composição com alguns músicos brasileiros. Fundou e exerce a função de curador do coletivo Poetas pela Democracia. Vive e trabalha em São Paulo.
Obras (poesia)
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