poesia

Susanna Busato

Moldura de lagartas


Ilustração de Ricardo Cavani Rosas

 

Tarde inescrupulosa...
Teu olhar invade-me as coxas
Entre claves de sol e colcheias

 


 

do corpo
quero
o centro
o olho
de dentro

 


 

As mulheres têm peitos.
Pelos peitos elas tecem
sua presença redonda e completa.
Sob a blusa os peitos falam
descansam
caminham.
Somente os peitos têm asas.

 


 

Antropofagia

 

Os homens comem
na mão
o pão.
Na cama
as entranhas.

 


 

Um caso de amor

 

Asfalto fuga e fumaça
suas trilhas nefastas
perseguem as minhas
na prega da saia
no beijo do vento
na flor descoberta
vermelha no centro.

Cidade de azuis clandestinos
couraça de pó e cimento
me abraça como um noivo
e me lança viadutos adentro.

Me entontece nas curvas
me sussurra nos trilhos
encruzilhadas de amor eterno.

É assim que te quero
na volúpia pneumática das esquinas
inteira como as avenidas
da minha Paulista humana loucura.

 


 

Marugem

 

As coisas surgem
do caule da gente
insurgem
marugem
de esponjas
quais monjas
silenciosas

 


 

Cantiga de roda

 

Toda São Paulo a que volto
me volta,
pálpebras baixas,
uma nuvem vaga.
Toda São Paulo a que volto
deságua
no confronto
a última lágrima.

 


 

Terminatum est

 

Dia termina
no estupor
sol e pavor
vento e buzina.

De membros tensos
escapamentos
comem as pistas.

 



Sem estante



Cada livro que tenho
depositado em pilha,
em suporte de madeiro,
mesa ou tampo,
de cozinha ou banheiro,
de cabeceira
de cama ou gaveteiro,
cada livro me olha
como quem pede a vida volante
de um livro em roda, livre,
sem estante.

 


 

Moldura de lagartas

 

Olympia nua
sua
carne ondula
na moldura branca
espelho de alfaias.

Olympia pura
baça
paira
olho nefasto
veludo fosco
relva verde
entre as pernas.

Dos colares observa,
sossega
a negra íris na carne branca
e exala
no pó dos móveis o vidro embaçado da moldura.

Olympia ondula
sua
pele de nácar
e lança pedras
na memória intacta
da pudica mão
que lhe guarda o anjo
sem asas.

Florescem as pernas de Olympia
como pinças
de um amor desencarnado
e enamoram a aura fescenina dos mamilos
esses voláteis látegos do desejo.

Não há retornos no ar de Olympia.
Seu corpo materializa o nada.
Seus brincos vestem a sedutora ordem da beleza,
verdade de vidro embaçada na moldura de lagartas.

Mijam os gatos no quadro de Olympia
moldura quente
acesa ferida.
Olympia fede na sua beleza de marfim
fincado de dentes.
Regurgita.
A boca mínima
lambe as feridas.
Engole.
Pote vazado para os seus desejos de fonte.

Olympia rasteja no vidro como lagarta no cio.
Olhos de vaso chinês, pele de laca.

E você, indiferença de crayon, aprendiz de galeria,
assopra a gordura baça da vida
no sonho de vidro da borboleta de negras asas.

 


 

Nascimento do olhar

 

O pôr do sol avermelha o horizonte.
O sol se põe no vermelho do horizonte.
O vermelho se horizontaliza no sol.
O pôr do sol orienta o vermelho.
O horizonte deposita vermelhos no sol.
Um sol se põe na vermelhitude ortogonal do
horizonte.
Um horizonte avermelha ao sol.
Em decúbito dorsal o sol do sol
avermelha.
Horizontalizam vermelhos de sol.
Solarizam rubros horizontes vergéis.
Vertem vermelhos espelhos de sol.
Horrorizontes vesgos vergam-se
ao sol.
Horrorizontes velhos vertem vespas
de sol.
Horrorizontes vermelhizam sendas
de sol.
Vertem rubros vergéis em horizontes
de fel
ao sol.
Um pôr de sol depõe contra
o horizonte. Vermelhorror: o
sol
se
con
so
me.


Susanna Busato


Susana Busato (SP) é poeta e professora de Poesia Brasileira (UNESP). Autora dos livros de poemas Moldura de Lagartas (2020), Selo Demônio Negro, Corpos em Cena (2013), Ed. Patuá, SP, finalista do 56º Prêmio Jabuti de Literatura, categoria poesia (2014), e Papel de Riscos (plaquete), pelo Centro Cultural São Paulo (2013). Ganhadora do Mapa Cultural Paulista, categoria Poesia, (2010). Tem artigos e poemas publicados em revistas acadêmicas e em revistas de poesia e literatura. Participou da "Mostra Poesia Agora": Museu da Língua Portuguesa (2015); Caixa Cultural do Rio de Janeiro (2017) e Caixa Cultural de Salvador (2017). Como declamadora, integrou o Recital Multitudo Haroldo de Campos, no Itaú Cultural, SP (2011), e o Recital Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros (homenagem a Oswald de Andrade), na FLIP, Paraty (2012), patrocínio do Itaú Cultural. É autora do podcast “Poesia como Entrada” (2021). É membro da Academia Rio-pretense de Letras e Cultura – ARLEC – de São José do Rio Preto, cadeira 21, desde 2025.

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