Luciana Barreto
Nenhuma Paixão Desperdiçada e outros poemas

P A L A V R A
De sua haste madura
– fruto desprendido –
a palavra guarda
a espera que se cumpre
a colheita inevitável
ao sol impossível
de meio-dia
a palavra se abre
por vezes, líquida
– irresistível
por outra, pétrea
– impenetrável
palavra
palavra
escapa
erodida
gasta
explode
florescida
refeita
[e nada apaga o papiro]
palavra-ave-palavra
guardiã do tempo
abrigo dos homens
cornucópia absurda
de mais
e mais
e mais

ALEXANDRIA
ainda hoje ardem os livros de Alexandria
e sobre os ombros do mundo
e as hastes formidáveis dos palácios
[ardem hoje ainda os livros de Alexandria]
sob as estórias encantadas de Sherazade
as páginas diabólicas de Borges
os manuscritos do Mar Morto
logo ali – a um passo ou dois –
nesta estante armada em um caixote
restam a ave incendiada
e o poema negro
indevassável
mortal

FIO
que a poesia persista
além das infâncias-dias-mortes
para soprar àqueles que virão
[e quem sabe confluir
num definitivo verso]
o que há de vir e a linha mais remota
da perdida e impossível palavra
que a vida mesmo não importa
– rota pobre tola fugaz –
talvez mero volante
ao fio soberano do poema

PALALÁXIAS
A Haroldo de Campos
em meio ao absurdo
inicial
ao não entendimento
absoluto
eclode-se o grito
primevo
: numina insciência
deste liquidoelétrico fio
– o de dentro da concha –
revolvem-se signos
bólidos opacos
: palaláxias
o poeta
enxadrista de estrelas
em seu quase céu
– caleidocosmos –
pisa as águas do Lete
no cume do mundo
haroldoharoldoharoldo
somsentidovento
babel incendiada
e o pássaro de fogo
sopra seu nome

A POETA E O CALÍGRAFO
De suas mãos pouco sei
a não ser do traço
inadvertido
deitado em crayon ou aquarela
Soube ainda
(espiando aqui e acolá)
da grafia cuidadosamente
caprichada
de letra a letra do alfabeto romano
e tantas (e tantas) capitulares
cintilando as não-frases
(talvez interditos peito adentro)
ou as mais castas iluminuras medievais
Do lado de cá
os meus dedos teclam líquidos
desenham (tentam) a escrita ordenada
os ditos impossíveis
e aquele pomar antigo
onde a primeira mulher despedaçou a linguagem
acendeu a urgência
– reinaugurou o mundo.

NENHUMA PAIXÃO DESPERDIÇADA
A cada pele palmilhada
o tatuador altera
um mapa
– e não falo de corpos avulsos
ou mais um colo à mostra
sob as agulhas.
Importam as inscrições
: o pórtico por entre as ruínas
os abraços retorcidos em Pompeia
aquela lombada já rasgada
pelo tempo
o coração desenhado no muro
a memória grafada (no vento)
do primeiro beijo
do ventre, o choro arrancado
do meu bebê ainda sem nome.
Sei agora de mãos firmes
(e um tanto delicadas)
e do traço resoluto
: o meu império a salvo.

CORTE
Para J.P.
esta vida
– a única que nos é possível –
macera-nos (lentamente) dentes
sonhos, ossos
alternando sopro
ora sal
sobre feridas
quase secas
este tempo
– sempre o tempo úmido do peito –
indistintamente lega a todos
o sobressalto irrefletido
devolvendo à certa face crispada
(e a sabidos dedos brutos)
o açodamento escavado em prata
em pedra
em nós
naquele caco de espelho
outra (e outra) vez
– precisamente –
a palavra lâmina
afila
o corte

PAPOULAS
Às mulheres afegãs, a todas as mulheres do mundo
Traz o vento a voz ancestral
Leva a areia o canto inaudito
A águia pérsia deslinda o papiro
: Não se rasga o céu sem eclodir a terra
: Não se cobre a face senão pelo horror
[Saberão os homens de preto
O corredor de Cabul há de ecoar]
Desfaz o vento a seta do tempo
Refaz a areia as pegadas de sal
Pois dos olhos da menina do deserto
já foram aprendidas as estrelas
escandida cada sílaba de fogo
E as palavras agora pra dentro
não declinam de seu destino pétreo
: ver-dizer-existir
[Saberão os homens de preto
O corredor de Cabul há de ecoar]
Sim, o sol castiga impiedoso
mas é da Ásia que nasce a lua
a desvelar o véu, a revelar o rosto
daquela mulher de argila antiga
e líquidos (e longos) cílios negros
Vem outro golpe
e mais um sopro de pó
restitui a força sempre suportada
– Não, não mais a recitação cega
– Não, não mais o sacrifício sagrado
[Saberão os homens de preto
O corredor de Cabul há de ecoar]
De cada papoula arrancada
o filete de sangue
relembra a seiva, a fúria, a vida.

GAZA
contra aquela mulher de rosto oliva
o deserto inverte a ampulheta
avança em seus passos de pó
desfere-lhe o fogo ilegítimo
cega-lhe os olhos
imperscrutáveis
contra a fuga às cegas
escava no corpo
velhos, homens, crianças
: a Palestina em suas cores
ao vento
pois Salomão estende o manto metálico
derrama suas estrelas de seis pontas
e o candelabro brilha em ouro
em soberba
em sangue
acima de nossos ombros
o mais vívido dos cemitérios
flutua
e o rio Jordão mistura-se ao Mar Morto
e afunda – em regozijo inclemente –
o tempo palestino
(dos anciãos esquálidos aos viventes insones
aos bebês que subjazem ainda no ventre)
: rito sádico
batismo invertido
sobre as ruínas
olhos fora da órbita
sequer sabem de seus corpos
são tíbias arrancadas
são rostos explodidos
mas as mandíbulas prosseguem
intactas
(ânforas atônitas guardando
a misericórdia impossível
os gritos inapagáveis)
entre o cerco de arame
e o muro ancestral
o céu é mais baixo
a terra, apequenada
o mar, outra rota
de abismo
mas esta mulher
em dignidade calcária
(o keffiyeh refuga os estilhaços
e o pássaro-sol reabre-se em leque)
risca na areia
– um a um –
todos os seus mortos.

COMUNHÃO
Em diálogo com Avalovara
Calmo nome
despe a blusa
deixa nus
os ombros
e os seios livres
ao silêncio grave
(e despudorado)
dos amantes
despetala-me
– em haste rija –
outra e outra
de mim (em ti)
calmo nome
(homem meu)
deslizo líquida
colho galhos
verto rios
(e baixinho)
peço-lhe (grata):
toma-me
penetra-me
acrescenta-me.
Luciana Barreto

Luciana Barreto é poeta, ensaísta, crítica literária e vem atuando como professora de Teoria Literária e de Literaturas Brasileira e Portuguesa na Universidade de Brasília, com Mestrado e Doutorado pela mesma instituição. Tem poemas publicados em Mallamargens, Gueto, Germina, Ruído Manifesto, Traços e Escrita Droide, além de integrar algumas coletâneas, a exemplo de As mulheres na literatura brasileira (Ed. Arribaçã), Novas vozes da poesia brasileira, uma antologia crítica (Ed. Arribaçã), 8 poetas em travessia – poesia brasileira e chinesa em diálogo (Pontes), Tempos adversos (ArtLetras) e Quando os peixes voam (Lumme Editor), Constelação Haroldo de Campos (Território das Artes), Aí que são elas II - poesia feminina atual (Semim Edições). Organizou a coletânea o meio do fim do mundo – 89 poetas hoje – (Ed. Elã), em 2023.
O seu livro solo – Nunca é casto o fio do poema — está em fase de edição e sairá pelo selo Invencionática, da Editora Bestiários.
Em 2022, esteve na cidade de Paraty, Rio de Janeiro, onde recebeu a distinção de menção honrosa na premiação OFF FLIP de Poesia; em 2023, 2024 e 2025, ficou entre os finalistas.
Já atuou, também, como jurada em prêmios de poesia.
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