Nuno Gonçalves Pereira
O céu dos suicidas
Oração
quando todos pensarem que estou morto
estarei na montanha mais alta da Grande Aldeia
ao lado direito de Augusto dos Anjos
sob a sombra do sol esquecido
refletido nas raízes dos olhos de Cruz & Sousa
quando todos pensarem que estou morto
estarei na selva maior da Aldeia Grande
na forma de vento ou de pássaro noturno
olhando os mistérios da terra
encravados nos caminhos arcaicos
quando todos pensarem que estou morto
estarei nu no olimpo
um deus entre os deuses
como um rei selvagem
ou um monge ébrio entre os miseráveis
quando todos pensarem que estou morto
estarei na taberna ou na praia mais fascinante
conversando com a Virgem e com Álvares de Azevedo
fumando haxixe, ópio e marijuana
bebendo lentamente o vinho das almas
quando todos pensarem que estou morto
estarei em meditação tão profunda
que um tonto me tomará por um espectro ou por um fantasma
e os sábios cairão por terra
cegos pelo brilho da estrela que arde em meu estômago
quando todos pensarem que estou morto
estarei vivo na última semente
apodrecendo no charco
& germinando a árvore do próximo planeta
depois da morte e do enterro da esperança
Romance de formação
acumulei tantos não-saberes
que quase me afoguei na pia de batismo
figuras de linguagem são indomáveis
como onças no cio
ou os paralelepípedos dessa cidade
havia uma pedra no coração da praça
e um acarajé de realidade brilhando no sol ao meio-dia
certa feita um galo escapou de seu quintal
figuras de fé são indomáveis
estilo e sorte não são coisas que se entregam facilmente
certa feita à calçada da Igreja você disse coisas que parecem com coisas
retorcidas são as raízes em sua busca às águas
sempre haverá um destino onde houver uma flecha
figuras de promessas são indomáveis
desacumulei tantas não-ciências
que quase me afoguei na imensidão dessa cidade
como quando você abriu o arquivo
afagou a marca da cirurgia
e tornou ao reino das coisas vivas
que parecem com coisas extraídas de pedras retorcidas
calçadas de igrejas e galos em perpétua fuga
depois da morte sempre outra morte
depois do medo o labirinto do imaginário
o que eles chamam de fábula
nessa cidade é vida, sonho e revelação
poderia ser uma feira de mercadores na África
ou um barco de navegantes gregos
mas é essa cidade
inteira, íntegra, indomável
como uma cicatriz desenhando a geografia de uma cabeça
nossos mortos são indomáveis
assentamento é uma força que só os rios conhecem
quando a pele vem à flor dos nervos
a noite chega
com seus ventos e suas vísceras
e vai apascentando seus filhos
como se o anjo nunca tivesse nos abandonado
como se as lâminas e as memórias da guerra nunca tivessem se dissolvido
na sua casa, feita de pedra e terra vermelha,
haverá sempre algo não nos deixando esquecer
que todo abrigo é indomável
como uma sussuarana no cio
ou como uma estrela rebelde que abandonou definitivamente os subterrâneos...
Recém-parido
Nem tão frágeis são os ossos.
(...)
Muito cuidado com o recém-nascido.
Adélia Prado.
Era dia de caça.
Nem todas as rotas levam ao coração.
O sol escorregou sangrando por essa fenda entre tuas pernas.
E minhas mãos tocaram outra vez as areias do deserto.
Era dia do caçador.
Apenas uma rota leva ao coração.
Onde a lua ferve depois do desfecho inevitável.
E minhas mãos rogaram para que o Nada tornasse ao seu trono.
Era dia da caça e do caçador.
Que o coração invente sua rota.
E se liberte do cárcere da promessa do paraíso.
Não há flagelo maior que aquele que está por vir.
Era dia de louvar a mulher que pariu o sol.
Era tempo de saudar a batalha dos condenados a esculpir estátuas de sal.
O sangue que banhava o recém-nascido.
E a vontade de esquecimento que saltava do inferno de seus olhos.
Até os ossos mais resistentes viram cinzas.
Com clemência e piedade oramos ao cetro onde se apoia o rio curvo.
Os mortos clamam: abandonemos o temor às tentações.
Na floresta toda resistência é inútil.
Qualquer dia amanheceremos irreconhecíveis.
A moça do cartório registrou dezembro em sua ata de nascimento.
E com pluma leve e sorrateira escreveu nas águas radiantes:
Muito cuidado com o recém-nascido.
Os céus o protejam da angústia que caminha com a esperança.
Ode à Cachoeira
Existem cidades que são somente cidades
Lugares onde as pessoas vivem
Outras cidades são prólogos, prefácios, pequenos pressentimentos
Existem cidades que são somente lugares
Onde as pessoas vêm e vão
Como as algas marinhas
Ao sabor das marés
Outras são como oráculos encravados à flor da terra
Nos recordando quem somos, de onde viemos e para onde vamos
Existem cidades que são feitas de fogo e água
Nelas não habita o acaso
As esquinas gritam e sussurram a depender de coisas que nos escapam
Existem cidades que são somente cidades
Onde os sonâmbulos caminham
Outras acendem escuros e abrem túneis debaixo da crosta do corpo
Existem cidades que são só passagem
Outras são ancoradouro de rios e galáxias
Existem cidades onde tudo é espera
Lugares onde tudo que acontece recorda a presença do Nada
Outras são todas elas presságio
Reminiscências do mistério que nos acompanha desde o berço
E memória profunda da morte que nos aguarda.
O céu dos suicidas
Amanhã haverá eclipse.
E anéis de fogo incendiarão o céu da Antártida.
Seguirei aqui. Neste não-lugar de vinho em perpétua fermentação.
Com minhas mãos trêmulas acendendo velas aos suicidas.
E a chama da esperança que ainda deverá seguir queimando após a festa da carne.
Amanhã haverá eclipse.
Apesar de tudo ainda não será a hora do céu cair sobre nossas cabeças.
E o cheiro das últimas trepadas de carnaval estará disperso na atmosfera.
E os uivos e os gemidos e os berros das últimas trepadas de carnaval estarão dispersos no ar.
Serpenteando entre todos os versos que foram escritos pela Voz no ar.
Nas mais estranhas línguas jamais imaginadas.
Amanhã haverá lagrimas.
Uma flor arde em febre e a terra apoderada pela mais brilhante convulsão.
Seguirá girando entre as covas rasas e profundas dos suicidas.
Com suas estrelas e astros imprevisíveis.
Apesar da flor que arde em febre e seus banhos de paracetamol e codeína.
Apesar da flor que vomita a herança de todos seus antepassados.
E chora. E chora. E chora.
Neste não-lugar de vinho em perpétua fermentação e sonambulismo.
Amanhã haverá mais um eclipse.
E os cães. E os gatos. E os veterinários e os pediatras que cuidam das flores e
as protegem da fúria assassina dos jardineiros
estarão mergulhados na insana festa da carne e do sangue.
Amanhã haverá eclipse.
E dessa vez nenhuma profecia estremecerá o sereno transcurso do tempo.
Nuno Gonçalves Pereira

Nuno Gonçalves Pereira é doutor em Estudos latino-americanos (UNAM), mestre em História (UFC) e graduado em história (UECE). Publicou os livros de poesia “Cacos de Cristo”, “O sol e a maldição”, “Canto das onças”, “Cartas de Navegação”, “Calabouço de reticências ou a aridez do oceano”, “Álbum de família & outros negativos: poemas pós-apocalipse” e “Dicionário dos medos imaginários: morfemas”.
É professor-adjunto de História da América na Universidade Federal do Recôncavo da Bahia e atualmente vem desenvolvendo uma pesquisa sobre os conceitos teóricos de Antonio Cornejo Polar. Nasceu em Recife, mas é cearense. É pai de Maria Alice & Maria Assucena.
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