Paulo de Toledo
O poeta não busca

INCONFIDÊNCIA DE MACUQUENSE
Diferentemente do ferrenho itabirano,
que foi esperto e pegou a primeira estrada pedregosa pra escapar de lá,
eu nasci e sempre vivi aferrado a Santos.
E essa preguiça, essa vontade de não fazer porra nenhuma,
esse humor avacalhado,
esse desejo incontido de mandar todos tomarem no cu,
é tudo maldita herança macuquense
(ou não, sei lá!), ou seja, do Macuco, bairro de operários fodidos e mal pagos,
onde adolesci até os treze
e que carrego nas células como um câncer
infenso a quimioterapias
físicas e metafísicas.
Nunca tive nem tenho retrato na parede,
do tipo tirado naqueles tempos da infância de arroz, feijão e ovo
(minha parede tem mais o que fazer).
Nada me dói, o câncer
é recalcitrante,
mas, até agora, benigno.
gr
avado
no m
ár
more do
ar
o poema um
ag
ra
vo à lei da
gr
avidade
v e r s o
m e n t e
o e x i s
t e n t e
o poeta não busca
dizer,
ele busca
uma forma que, pode-se dizer,
busca
dizer-se.
incor
p
ora
acoràd
oro
p
intor
e
confor
me sobremaneira sabia o senhor
bananeira poesia não senhor
não cai de árvor
e
ninguém assistiu à formidável
live
do enterro de tua última
quimera
a mão que curte
é a mesma que deleta
Paulo de Toledo

Paulo de Toledo é mestre e doutor em Letras-USP. Poeta, tradutor, contista e crítico literário, publicou, entre outros: Torrão e outros poemas, A Rubrica do Inventor e 51 Mendicantos. Participou dos livros Musa fugidia, VAIEVEM e LulaLivre*LulaLivro. Conta com textos em: Revista Babel, Meteöro, Cult, Revista Ciência & Cultura - SBPC, Coyote, Artéria, Revista Opiniães, Musa Rara, InComunidade, Correio das Artes, Suplemento Cultural de Santa Catarina.
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