Demetrios Galvão
Poemas
o mundo feito com as mãos
no universo antropomágico
do mundo feito com as mãos
existem seres bonitos em sua simplicidade
uns visíveis e outros invisíveis
essa comunhão que frutifica
uma espiritualidade suave
de mãos dadas com a mística do planeta
o ciclo cósmico renova ruínas
e a força transformadora
produz alimentos
molda idades abstratas
reluz palavras na escuridão
a humanidade come na mão da natureza
comunhão
o peso do voo é um teorema
compreendido apenas em sonho
movimento estendido no azul
vida vagando no ar
todos os dias
dou comida aos pássaros
certo de que não me contarão
os seus segredos
não falam sobre o primeiro voo dos filhos
nem da oração aos seus mortos
nosso pacto é um pequeno monumento
trabalhado na calma luz da manhã
o mistério é nossa comunhão
o escuro dos sentidos
ver as palavras e não enxergar nada
olhar o oco da grafia, tudo vazio
nem corpo, nem aura, nem fluido
ouvir um som sem voz de palavra
um ar estático, mordaz
sem matéria que penetre os ouvidos
andar no escuro dos sentidos
passo a passo sobre a falha tectônica
morfologia difícil de percorrer
– foi o que disse um experiente pajé
quando avisou sobre a queda do céu
farrapos da imprecisão
é privilégio dos vivos ter lembranças
coisas guardadas onde não sabemos:
de um avô, lampeja a velhice esbranquiçada em passos bem curtos
palavras que não criavam raízes dentro da frase.
do outro, a matéria dos olhos assertivos-esverdeados
semeando a terra, plantando cajus e lutando contra as formigas.
de uma avó, ficou a potência de uma mãe de muitas mulheres
que não tiveram a sua mesma força.
da outra, a doçura-alegre de quem gostava de bananas
e nos enchia o bucho com coisas boas.
o que fica são os farrapos da imprecisão
alguns flashes não revelados da máquina.
um café com os amigos
os fantasmas de estimação
me ajudam a escrever poemas
ao meio-dia, alimento o corpo
à meia-noite, dou de beber ao espírito
de imagem em imagem, repenso
o labirinto por dentro e por fora
o eixo luminoso que viaja no espaço
e visita a constelação de capricórnio
lamento a partida dos amigos
imagino onde devem estar tomando um café
vez ou outra, pegam na minha mão
quando deslizo o lápis sobre o papel
no limiar do sonho
uma alegria-gráfica brilha no escuro
– traçado de vida no risco do grafite
Demetrios Galvão

Demetrios Galvão, Teresina/PI 1979. É professor de instituições de ensino da rede privada de Teresina, poeta e editor. Publicou os livros de poemas Insólito (2011), Bifurcações (2014), O Avesso da Lâmpada (2017), Reabitar (2019), o objeto poético Capsular (2015), as plaquetes A Inconstância dos Fluxos (2023) e a Grandeza do Rinoceronte (2024). É coeditor da revista Acrobata e do projeto Atlas Lírico da América Hispânica.
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