poesia

Carlos Ávila

Poemas sob o sol

       

 

 



Poetry: the word I am thinking of

 

& não será
a poesia
(femme fatale)
apenas uma palavra
dentro de outra palavra
que não quer dizer nada
& não será
a poesia
(femme publique)
apenas a migalha
dentro de outra migalha:
fogo de palha
& não será
a poesia
(femme de chambre)
apenas o ar assoprado
por um aloprado
no ouvido do olvido
& não será
a poesia
(femme grosse)
apenas o resto
de um almoço indigesto
entre convivas no inferno
?
o que será
(une femme: infame)
será




 

Rua Outono

 

na rua outono
(rua d’antanho
com árvores
impressionistas)
vivem todas
as estações do ano

ali
o poeta pedestre
(pareil à la feuille morte)
segue no vento
sem metro
ou mestre

a rua
(suas extremidades curvas)
propõe um teorema:
é uma presença
feita de ausência
um anti-tema

& no entanto
aqui se inscreve
(passagem obrigatória)
como reles retórica
no rascunho semiótico
da cidade

na rua outono
(rua de estranhos
com ares
impressionantes)
morrem todas
as ilusões do ano

 


 

Baudelaire sob o Sol

 

o sol
(a ser adjetivado:
im-pla-cá-vel)
descorou a capa
de um volume de baudelaire

as flores do mal
(descubro)
não resistem à lenta
violência do sol
(sol de boca-de-sertão
que estorrica o solo?)

também
quem mandou
colocar a estante
nesta posição:
o que estaria baudelaire
(em efígie gráfica)
fazendo no sertão?

se as flores do mal
não suportam o sol
(repondez baudelaire)
resistiriam aos punhais
do óxido e do sal?

 


 

Mais um maio

 

mais um maio
vazio
sem você

mais um maio, minas
mais um maio sem palavras
desmaio do sentido:
sem canções
corações em repouso
- pausa –
prosa chocha
poesia pra ninguém

mais um maio
“e nenhum filhodaputa
pra conversar comigo”

mais um maio amargo
sem praia mar ar
(taquicardia-a-dia)

mais um maio
menos um mês
sem você

mais um maio
azulestrelado
& muita lama aqui embaixo

 


 

Narcissus Poeticus

 

secou

(no vaso
sem água)

mal plantado
numa waste land
(minúscula)
de apartamento sombrio:
como resistir
a pó poeira poluição?

maltratado ex-narciso
à própria sorte abandonado
(rente ao piso)
sem fonte
nem espelho

secou
(só no vaso)
sem suor nem saliva
sem lágrima
que o pudesse salvar

morreu

(fuligem
na alma)

 






 

 

Rendido

 

rendido
na teia
cortante
do tédio

limado
na trama
oculta
do limbo

consumido
na câmara
escura
do equívoco

sufocado
a ferro e fogo
até perder
os sentidos


 

Desaniversário

 

tempus
anti-flor
(tristeza)
sem haste

vileza
da velhice
invasiva
dia a dia

corrosão
de cãs
arrufo
de rugas

falto
de ar
nada
a comemorar

 




Displaced

 

torto
(errante)
de dentro
para fora

à deriva
na página
e em toda
parte

(escrita
em adiantado
estado de
decomposição)
torturado

nos ângulos
agudos
da forma

 




Outra vez

 

outra vez
nenhuma
mensagem
nova

apenas
ruídos
itens
excluídos

(línguas
ininteligíveis
nas linhas
inimigas)

o ríspido
ocupa
o lugar
do lírico

 




Eclipse

 

eclipse
do sol

mundo
de sombras

talvez
de sobras:

catar e comer
lixo

ninguém
diz nada

elipse
do ser


Carlos Ávila


Carlos Ávila (1955) é poeta e jornalista. Publicou os livros de poemas Aqui & agora, Sinal de menos, Bissexto sentido, Área de risco e Anexo de ecos; o volume de crítica Poesia pensada e o livro infantil Bri Bri no canto do parque. Foi editor do Suplemento Literário/MG e participou de mais de vinte antologias no país e no exterior, entre elas, Nothing the sun could not explain – 20 Contemporary Brazilian Poets (Los Angeles/EUA, Sun & Moon Press) e Anthologie Internationale de Poésie Contemporaine (França, Les Presses du Réel). Teve poemas musicados por Gilberto Mendes e Willy Corrêa de Oliveira. Prepara, no momento, um novo livro intitulado Pontuações.

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