poesia

Fabiano Fernandes Garcez

Poesia se é que há

 

SE JESUS VOLTASSE HOJE

 

 

Quem acreditaria
se Jesus voltasse hoje?
Mas, se ele voltasse
seria brasileiro

Nasceria na periferia
de São Paulo
Seria negro?
Cantaria RAP?

Sobreviveria a
Mortalidade infantil?
Exclusão social?
E a violência sobreviveria?

Se Jesus voltasse hoje
nasceria no sertão da Paraíba
ou Pernambuco
Teria voz grave e rouca
para falar a multidão
e cantar repente 

Sobreviveria a seca?
a fome?
Sobreviveria ao racismo?

Se Jesus voltasse,
hoje no Brasil
dormiria nas ruas?
Comeria de favor?

Chamaria Jesus?
Genésio, Gésio
Ou Mané, José, João
Benedito, Romão?
Precisaria ele de nome?

Seria católico?
        evangélico?
Seria caótico?
Seria cristão?        
         Espírita?
Novamente judeu?
Seria Jesus ateu?

Acreditaria nele os Deuses?
                  Dessas religiões?
Seus seguidores?
Seus patrocinadores acreditariam?

Ou prefeririam acreditar
naquele de barro, louça
gesso ou madeira
que fala pela boca dos outros

Se Jesus voltasse hoje,
falaria o que já falou?
Se é que falou...

Saberia Jesus escrever?
Seria um teólogo?
Para saber sobre as religiões?
Agora dessa vez, caso
voltasse, desrespeitaria as regras
como já fez?

Se Jesus voltasse
quem acreditaria?
O Diabo?
O tentaria?
E Deus?
Acreditaria ou o abandonaria?

Se Jesus voltasse hoje
ganharia dinheiro?
Investiria?
Agradeceria suas vitórias?
Ou reclamaria suas derrotas
a um Jesus mais antigo!

Se Jesus voltasse
compraria crucifixos?
Pagaria dízimos?
Casaria? Na igreja?

Se Jesus voltasse
nasceria brasileiro
Você acreditaria?
Ou o condenaria?
Será que já não nasceu?

 

(Do livro Poesia se é que há)

 


 

ESCOLA

 

 

Na sala de aula:

            preposição,
            artigo,
            substantivo
            e locução adjetiva

Quarenta alunos atentos
Um só dorme 

mas é o único que sonha! 


(Do livro Rastros para um testamento)

 


 

 

    (Do livro Em meio aos ruídos urbanos)

 


 

 

CERTO PROBLEMA

para Ângelo Donizette

 

 

Mas que
sentido
o fez
soltar
a vogal
em meio
à imensidão?
Que consciência
soou que
o fez
abaixar
deixar a
conversa manca
e recolher
nas mãos em concha
côncavas
o indefeso inseto
mediante o
esmagamento?

Que gesto
num mundo
em que a vida
é indigesta
mesmo até
de um ser
mais reles
que o som
de pólvora
que o som
de níquel
que o som
surdo da adaga
que range
que rasga
roupa, carne
e penetra
adentrando
cavando fundo
em cada um
a cada noite
a cada amanhecer
Que gesto é esse
que me fez
esse poema
em prol de apenas
um risco
um cisco
uma centelha

Enquanto
a abelha
segue
seu alheio voo
rumo
a horizonte
inconstante


(Do livro Um grama apenas do abstrato)

 

 


Fabiano Fernandes Garcez


Fabiano Fernandes Garcez nasceu em 3 de abril de 1976, em São Paulo. É mestre e doutorando em Letras pela UNIFESP. Além de participar de inúmeras antologias, é autor dos livros Poesia se é que há (2008), Diálogos que ainda restam (2010), Rastros para um testamento (2012), Em meio aos ruídos urbanos (2016), finalista do Prêmio Guarulhos de Literatura 2017, Um grama, apenas, do abstrato, Editora Primata, 2019, vencedor do Prêmio Guarulhos de Literatura 2019 e Badaladas de uma preliminar (2020) Editora Primata e Vínculos e Rupturas – a poesia brasileira no XXI e o Modernismo de 1922, sob o olhar da crítica (2023). É produtor e apresentador do Sala de Leitura com Fabiano Fernandes Garcez no Youtube.

 

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