curso

HAICAI/HAIKU: Ética e Estética

Edson Cruz

Uma imersão crítica na ética e estética do haicai ortodoxo e contemporâneo


HAICAI/HAIKU: Ética e Estética
Haicai como exercício do olhar, tradição poética e reverberação contemporânea

 

Carga horária: 10 horas
Duração: 5 encontros de 2 horas de duração (1 por semana)
Modalidade: Curso livre / Extensão / Formação poética
Público-alvo: estudantes de arte e literatura, poetas, professores e curiosos

 

Apresentação

O curso propõe uma aproximação ao haicai (ou haiku) não como forma poética fixa, mas como prática ética e estética a partir de uma percepção direta do real. Seguiremos o fio da leitura de R. H. Blyth (que definiu o haiku como “um modo de ver”, não um tipo de poema), percorreremos a tradição japonesa clássica, suas reverberações no Brasil e a cena contemporânea global, incluindo algumas haijins mulheres e a crítica à “zenificação” ocidental do haicai.

Articularemos leitura crítica de haicais emblemáticos, um pouco de sua história, traduções comentadas e exercício de escrita contínua, com ênfase no descondicionamento do olhar literário ocidental e na instauração de uma ética da atenção.

 

Objetivos gerais

Ao final do curso, o estudante deverá ser capaz de:

·       Compreender o haicai como prática perceptiva, ética e poética;

·       Conhecer o pensamento de R. H. Blyth, seus aportes e limites;

·       Analisar haicais clássicos e contemporâneos em perspectiva comparada;

·       Ter mais familiaridade com alguns mestres haijins e suas influências no Brasil;

·       Situar criticamente o haicai no campo literário contemporâneo global;

·       Produzir um conjunto consistente de haicais próprios.



Estrutura dos encontros


I – Haicai como experiência: R.H. Blyth e a ética da atenção

       Eixo temático: O haicai não é um tipo de poema; é um modo de ver.

·       Diferença entre forma literária e experiência direta

·       O erro ocidental da estetização

·       O poeta desaparece, a coisa aparece

·       Prática perceptiva, não doutrina espiritual

·       O acontecimento e a recusa da metáfora

·       O cotidiano como matéria do haicai

·       O humano como parte da paisagem

·       Natureza como campo de ocorrência

·       A palavra da estação (kigo) como ancoragem cósmica

·       Circularidade e impermanência

·       Leitura sem fechamento interpretativo

·       Ausência do “eu poético”

·       A não expressão de sentimentos

Práticas incentivadas:

·       Exercícios de observação silenciosa

·       Escrita de haicais sem metáfora

·       Registro de acontecimentos (não emoções)

·       Leitura comentada de Bashô, Issa, Buson sob a lente blythiana

·       Diário perceptivo (haibun pessoal)


Objetivo inicial: Descondicionar o olhar literário ocidental e instaurar uma ética da atenção.

 

II – Os quatro mestres: Bashô, Issa, Buson e Shiki

       Eixo temático: A tradição como campo de variações.

 

·       Bashô, caminho (do) e errância

·       Não siga os antigos, busque o que eles procuravam

·       Buson, o haicai como cena

·       Issa, o humano no centro sem egocentrismo

·       Fragilidade, humor, empatia

·       Shiki e a modernização do haicai

·       Ruptura com idealizações excessivas

 

Práticas incentivadas:

·       Análise comparada da produção dos mestres

·       Renga coletivo

·       Exercícios inspirados nos mestres

 

Objetivo inicial: Compreender a tradição como campo de variações e aprender a dialogar com ela sem fetichização

 

III – Haicai contemporâneo e a reverberação no Brasil

       Eixo temático: Expansão do haicai como linguagem global.

 

·       O haicai pós-Shiki e as rupturas formais

·       Temas urbanos e vozes contemporâneas

·       Haijins mulheres e a invisibilização histórica

·       Jack Kerouac e seus haicais

·       A formalização inicial de Guilherme de Almeida

·       Paulo Leminski e a apropriação crítica de Bashô

·       Alice Ruiz, Pedro Xisto, Nempuku Sato, Millôr

·       Tensões entre ortodoxia e invenção

·       Haicai brasileiro como tradução cultural

 

Práticas incentivadas:

·       Leitura de haijins contemporâneos

·       Exercícios de escrita em deslocamento

·       Discussão sobre adaptação cultural

·       Início de um portfólio pessoal de haicais

 

Objetivo inicial: Situar o estudante no presente do haicai e estimular uma voz própria informada pela tradição.

 

IV – Crítica a Blyth e os limites da leitura ocidental

       Eixo temático: Desistoricização, zenificação excessiva e tensões entre tradição e diluição

 

·       Rejeição excessiva da metáfora e da subjetividade

·       Apagamento do contexto japonês

·       Limites tradutórios e normativos

·       Tensões entre tradição e diluição

·       Blyth como ponte cultural e como filtro redutor

·       Haicai como prática global: apropriação ou diálogo?

·       O que se ganha e o que se perde na leitura de Blyth

·       Estudo de casos

 

Práticas incentivadas:

·       Leitura crítica de textos de Blyth e de seus críticos

·       Debate em grupo

·       Reescrita de haicais próprios à luz das críticas

·       Continuação do portfólio pessoal de haicais

 

Objetivo inicial: Desenvolver uma leitura crítica e informada da tradição, evitando tanto o fetichismo quanto a diluição.

 

 

V – Portfólio final, curadoria e partilha

       Eixo temático: Consolidação da voz própria e circulação do haicai contemporâneo.

 

·       Revisão dos percursos

·       Da experiência blythiana à crítica contemporânea

·       Tradição japonesa e reverberações brasileiras

·       Haijins mulheres e haicai global

·       Curadoria pessoal: critérios de seleção

·       Leitura comentada dos portfólios

·       Perspectivas futuras, comunidades e revistas de haicai

·       A questão da tradução e diálogo intercultural

 

Práticas incentivadas:

·       Leitura pública de haicai

·       Renga coletiva de encerramento

·       Avaliação coletiva do curso

 

Objetivo inicial: Consolidar a prática do haicai como ética e estética da atenção, estimulando a continuidade autônoma.

 

 

 

 

BIBLIOGRAFIA BÁSICA GERAL


BLYTH, R. H. Haiku. 4 vols. Hokuseido.

BASHŌ, Matsuo. Sendas de Oku. Roswitha Kempf.

CAMPOS, H. de. "Haicai: homenagem à síntese" e "Visualidade e concisão na poesia japonesa". In: A arte no horizonte do provável. São Paulo, Perspectiva, 1969.

FRANCHETTI, Paulo; DOI, Elza Taeko. Haikai — Antologia e História. Unicamp.

GUTTILLA, Rodolfo Witzig (org.). Boa Companhia: Haicai. Companhia das Letras.

KEENE, D. Landscapes and Portraits. Tóquio, Kodansha International, 1971.

PAZ, O. "A poesia de Matsuo Bashô" e "A tradição do haiku". In: Signos em rotação. São Paulo, Perspectiva, 1972.


Edson Cruz


Edson Cruz (Ilhéus, BA) é poeta e editor. Fundou e editou o histórico site de literatura, Cronópios. Graduado em Letras e mestrando em Escrita Literária (USP). Seus textos críticos aparecem no Jornal Rascunho e no site Musa Rara. Tem 14 livros publicados. Lançou em 2020, Pandemônio (poemas) pela Kotter Editorial e, em 2021, Fibonacci blues – uma novela fractal, pela mesma editora. Em 2022, lançou Negrura, também pela Kotter e, em 2025, Satori na Laje, pela EditoRia e Zumbilhéu – antologia poética de um ilhéu brasileiro, pela Kotter Portugal.

← todos os cursos

Fale com noosfera

Comentários, sugestões, propostas de colaboração: escreva pra gente.

redes sociais