
Declaro residência na palavra, não em uma cidade ou um país. Dentro da oração, no coração da imagem construo minha cama, meu escritório, meu quarto. Há alguns dias estava de passagem pela cidade onde dei voo pela primeira vez ao meu portuges brasileiro. Foi talvez minha quinta visita à cidade de poesia concreta, de Casa das Rosas, do Museo de Arte Moderno de São Paulo, mais esta vez senti absolutamente em casa. Por que?
Pela primeira vez toquei as folhas de uma edição original da poesia de Augusto Campos. Passei minhas mãos sobre os arranha-céus e os quadros, as imagens das palavras como fitas de DNA, ao espaço branco cheio, não de figuras pintadas,mais de palavras desenhadas.
Senti a alegria de ver a palavra não só como uma unidade de conhecimento, da sabedoria mais também como uma estrutura no espaço e quando comecei ler o poema em voz alta senti que o poema também tinha sua casa sonora.
Por casualidade encontrei nos poemas doutro poeta da Índia, Shelly Bhoil, e descobri nos seus versos a influência e o aprecio para a herança que nos dá a poesia concreta. A palavra é liberada de depender só em um sentido linear e narrativo. E aqui entendi o ponto da partida da poesia migrante: o que faço desde há décadas mas agora com conhecimento. Não sou só um mensageiro do sentido. Sou também um artista visual e um músico da palavra. Sou migrante do conceito linear e limitado de vendedor do sentido e moro agora neste lado de aquela fronteira entre a ignorância e a sabedoria.
Bem-vindo então à poesia migrante, um espaço onde escreverei sobre o que considero o movimento fundamental de nosso tempo: o movimento em espaço, através das fronteiras mentais e espirituais que corresponde às travessuras geográficas. Em poucas palavras: Cruzar as todas as fronteiras: geográficas, linguísticas, emocionais, filosóficas e quem sabe onde vamos: biológicos , não só entre gêneros, mais também entre espécies.
Mais antes de desenvolver o mas bem regressar a natureza de pez de novo, também aqui publicarei poemas da minha caneta e de aquelas de outros poetas do tempos presentes e passados.
Aqui um primeiro poema para esta primeira coluna.
Uma volta
Voltei de São Paulo
com a ideia de Augusto Campos–
a través de Frederico Barbosa–
de olhar dois caminhos
na poesia: inovação e expressão,
que somos poetas de linguagem,
que inventam novas formas
de ver e de dizer, e somos
poetas confessionais,
das perdas e vitórias
na vida, mais finalmente
nós ficamos
ante a folha em branco
em um dia que muda rápido
com o clima em São Paulo.
Indran Amirthanayagam
Indran Amirthanayagam (nasceu em 1960, Colombo, Sri Lanka) é poeta, diplomata, tradutor e editor srilankês-americano. Poliglota, escreve e publica poemas em cinco idiomas: inglês, espanhol, francês, crioulo haitiano e português. Ao longo de sua prolífica carreira, publicou mais de 30 livros, incluindo White Space Sonnets que ganhou o State Literary Award no Sri Lanka e The Elephants of Reckoning que venceu o Prêmio Paterson em 1994. Como diplomata do Departamento de Estado dos EUA por trinta anos, serviu em diversos países, como Haiti, México e Brasil. Sua primeira coletânea em português, Música Subterrânea, foi publicada em 2024 pela Editora Kotter, consolidando sua ponte cultural com o mundo lusófono.
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