Celso de Alencar
Como uma rosa branca

UMA MULHER PEDIU-ME QUE LHE ESFAQUEACE AS PERNAS
No inverno de 1977
uma mulher pediu-me
que eu lhe esfaqueasse as pernas.
Foi num final de tarde.
Verdadeiramente era inverno
e os pássaros se agasalhavam
e o sol já se escondia
tal como um ovo alaranjado
ou um holofote sagrado.
As flores eram pequenos candelabros
que se apagavam dentro das pétalas
e se moviam com o vento do fim do dia.
Foi lamentável
pois eu jamais havia
esfaqueado à tarde
bem menos, as pernas.
Mas eu as esfaqueei.
Três vezes
cada uma delas.
Foram golpes profundos, verticais,
mas com sutileza,
como uma rosa branca,
e todos envoltos por uma delicadeza,
uma candura, que ressoavam
dentro dos meus ouvidos
de lebres encantadas.
Eu ouvia músicas ternas, primitivas,
que saíam da minha voz
e se deitavam sobre
o corpo esfaqueado.
Eu sussurrava com conforto
palavras de afeto e joviais
e modinhas do frescor da noite e silvestres.
Isso foi no inverno
do ano de 1977.
(Do livro Poemas Perversos)
A ÚLTIMA NOTÍCIA DA TIA ETHEL
Foi de médico a notícia do desvio
vaginal de minha tia Ethel.
Foi figura popular em nossa cidade.
A mulher da buceta torta.
Teve ela, ainda assim, uma dúzia
de filhos, entre os quais, cinco estão mortos.
Tia Ethel já não vive.
Carregou na névoa uma absurda história
de lábios de madeira de lei,
pombos que não conheciam a arte do segredo
e longas feridas entre os dedos das mãos.
Não se sabe ao certo a sua dor.
Discreta, confinou-se no campo,
colhendo arroz, feijão, entremanhãs,
marcas de velas e cinzas da vida.
A VELHA SENHORA BLASHKE
Ah! Lá estava à janela, a velha senhora Blaschke.
Sobre o batente, dois novelos de lã e as agulhas.
Ficava ali observando os passantes, as conversas,
o movimento dos carros, as brigas dos cachorros de rua,
os galhos das árvores balançando.
Vivia assim.
Descansava agora.
Já não lembrava dos antigos amantes
nem das companheiras de alcova.
Já pouco lembrava da vida.
Bem menos, bem pouco, de mim.
Vivia triste e só, sem maquiagem no rosto,
sem pintura nos cabelos
e peles sobrando-lhe nos alvos braços.
Lá estava quando caiu debruçada
sobre o batente da janela.
As pessoas moradoras da rua chamavam-na
gritavam seu nome, senhora Blaschke! senhora Blaschke!
Por Deus, levante-se! levante-se!
Foram em vão os apelos para que se levantasse.
De repente pela janela saíram centenas
de canários belgas amarelos
numa revoada desordenada
numa cantoria confusa.
De seus corpos caíam penas
e foram se afastando, se afastando,
e desapareceram no meio das nuvens de chuva.
AMEMOS OS MEDIOCRES
Que venham pela encosta incandescente,
os medíocres, e falem comigo.
Que venham sedentos do décimo oitavo deserto
e falem comigo.
Quero ouvi-los, ainda hoje, na porta da minha casa.
Quero comer suas vozes deformadas,
amá-los com meu sexo impertinente
e meus pés de máquina trituradora e cinematográfica.
Eu me alimento de medíocres compulsivos e irrequietos
e lhes digo: aproximem-se de mim, medíocres!
Venham para o inferno para que eu ouça
suas histórias de carneirinhos doentios!
Amem-me como eu os amo
e confessem seu amor por mim.
Andem comigo, com seus sapatos dourados
pelas avenidas da grande cidade,
para que eu lhes mostre onde serão erguidos
os seus deslumbrantes monumentos.
Floresçam nas praças como florescem as flores.
Nasçam como nascem os ovos, a desordem e a demência.
Falem comigo profundamente
como falam as almas tenebrosas que
seguem a fantástica e imperiosa morte.
AS PUTAS DA RUA DAS HORTÊNCIAS
As putas estão desamparadas.
As suas associações de classe foram
à falência antes da 2ª guerra mundial.
Ao lado dos bordéis instalou-se
por ordem do céu
um templo luxuoso onde os fiéis
entoam seus hinos e dizem que
a prostituição leva ao grande inferno.
As putas estão desamparadas.
Elas sentem fome e me pedem uma uva
e eu lhes dou um cacho de uva Itália
e alguns trocados em cédulas e moedas,
um quilo de café em pó
e um pacote de biscoito doce.
Os homens têm medo do inferno
e as vaginas das putas estão mudas.
Algumas ouvem música, alegram-se, põem
suas cadeiras nas calçadas, tomam sol,
enquanto outras deitam seus peitos nas janelas
e depois a noite chega e se entristecem todas.
As putas estão desamparadas.
Deixo-lhes que acariciem meu sexo
e cantem as musiquinhas de bordel.
Elas miam e latem
e andam pelos quartos
feito cachorrinhas
e dão saltos feito gatinhas
e comem uva Itália e roçam o talo da uva
no meu peito e vejo que suas vaginas estão mudas.
Elas vão morrer de fome.
Não sabem ainda aonde vão morrer.
Elas estão desamparadas.
AS QUATRO MULHERES DA RUA DA CONSOLAÇÃO
Estavam nuas.
Abram a porta eu lhes disse.
Estavam nuas
com seus seios redondos
e seus púbis escondidos entre
os pelos dourados
e pela noite que chegava.
Amavam-se com a loucura própria
das mulheres que se encontram nuas.
Beije-nos, elas diziam-me.
Eu passava meus dedos compridos em volta
de seus lábios e as beijava
com sangue que escorria levemente da minha boca
e mordia-lhes as orelhas, as extensões dos ombros
e a carne de suas coxas.
De repente, eu não sabia
O que era braço, o que era cabelo
nem mão, nem cabeça.
Debruçavam-se sobre mim
e eu me sentia um banco de estação ferroviária
ouvindo hinos longos e antigos.
Foi quando uma laranjeira brotou
no meio da sala e elas iniciaram um soluço infantil,
depois um soluço velho e debaixo de soluços
pediram-me que eu retirasse as folhas
que caíam sobre suas pernas.
Inesperadamente, um forte mugido primitivo,
um coro, soou, e eu gritava:
ó vacas, filhas da Consolação,
quero comer seus pulmões
com manteiga holandesa.
Então passei pela porta
pela outra porta
e vi um monomotor colorido sobrevoando
o velho cemitério da cidade.
E por um longo tempo.
Um tempo de horas.
Fiquei sem saber
o que era calçada
e o que era rua.
PERSUASÃO
Abaeté, 1964.
Soube-se que o filho do Senhor Contente
foi preso e levado no porão de barco para Belém.
Abaeté
Belém
Belém
Abaeté
Eu sempre falei
os poetas são todos comunistas.
A UDN acabou, mas a democracia continuará
ainda que tenhamos que liquidar todos os malditos.
Belém, 1964.
Do colégio do Carmo
para o bangalô da Breves.
A calçada do Arsenal de Marinha
era intransitável.
Os fuzileiros com suas roupas cáquis
amedrontavam as cabeças do futuro do Brasil.
10 horas da noite.
Estado de Sítio.
O Brasil de País
vai passar a Estado
de Estado vai passar a sítio.
Então plantará mandioca, feijão, cana, café.
No Marajó criará búfalo, vaca, porco.
Como é engraçado o pensamento
de estudante de colégio de padre.
São Paulo, 1978.
Prefiro uma bundinha negra na mão
a duas brancas voando.
Sou louco como todos os loucos do mundo
mas não maluco como o Ulisses Tavares.
Delicio-me vendo as pernas abertas
da Marlene Bilenky
o cio da Marize Pacheco
e a xexeca da Ivana.
Os fuzileiros e os padres
colocaram na minha cabeça
o futuro do Brasil.
(Do livro Salve Salve, 1981)
DEUS NÃO É BOM
No final da tarde do último dia
Deus reuniu todos os animais
e lhes disse: crescei e multiplicai-vos.
E assim se fez. A terra foi povoada
e viveram o homem e a mulher
e os outros animais e suas fêmeas
se multiplicando, como lhes disse Deus,
gerando filhos até os dias de hoje.
Mas o homem não é bom. Nunca foi bom.
Faz tempo que encarcera os outros animais.
Sente prazer em vê-los presos
paga ingressos para vê-los presos. Estão presos.
Diz que assim preserva a vida
daqueles que chama de bicho.
A crueldade alcança ainda os gatos e os cachorros.
Guarda-os em casas e palácios, chama-os de filhinhos,
dá-lhes seu sobrenome e decepa-lhes o sexo.
Destrói-lhes a liberdade.
Destrói-lhes uma das substâncias da vida: o orgasmo.
Gatos e cachorros não podem gozar.
Estão proibidos. O homem não quer que gozem.
Definitivamente o homem não é bom.
Deus disse: foste criado à minha imagem e semelhança.
Deus não é bom.
HAVERÁ UM DIA
Haverá um dia
em que não mais verás
as pegadas dos meus passos.
E ainda que percorras as ruas
e tateies as portas das casas amarelas
não conseguirás achá-las.
O tempo será como o vento
que dobra a folhagem desse pasto.
E perguntarás a ti mesma:
haverá um coração
que não sangre de dor?
E dando longas passadas
em direção ao lampião que se incendeia
mais uma vez te perguntarás:
Por que o vento é cruel?
Será que deixei de alimentar
o leopardo mágico
para que desse
o último sorriso da noite?
Ou teria sido curto
o meu último aceno?
Haverá um dia
em que ficarás
horas e horas
te fazendo perguntas
mas também haverá
um outro dia
em que meu nome
não mais chamarás.
(Do livro Poemas Perversos)
BANDIDOS
Um dia todos os bandidos
se revelarão bandidos.
E andando no campo,
diante das velhas árvores
sem folhas, desprovidas de frutos,
secas, inteiramente, secas,
dirão com seus rostos empafiados:
que belas!
Ao encontrarem
as cadelas de rua
com câncer nas mamas
e nas patas dianteiras,
acariciarão levemente
suas costas, suas cabeças e
sussurrarão: que lindas!
Como se encantados e bondosos, fossem.
Mais adiante
derramarão lágrimas
pela morte do jovem
Enzo Kantiss
filho único e amado
do grande amigo, colaborador,
comerciante de peixes congelados,
Erin Teniá Kantiss
atropelado pelo velho
jeep aero willys, 1958.
Todos são bandidos.
Um dia se revelarão bandidos.
Celso de Alencar

Celso de Alencar, poeta paraense, radicado em São Paulo desde 1972. Sobre Celso de Alencar, o poeta e crítico Claudio Willer, afirma que se trata do mais enfático poeta contemporâneo brasileiro. Surreal paroxístico. Escreve com furor messiânico, com a veemência dos profetas. Enquanto, o compositor e poeta, Jorge Mautner, o considera profeta da quarta dimensão, escandalizador e libertador de almas. Já o cineasta Carlos Reichenbach sintetiza: Celso de Alencar é, sem nenhum exagero, um dos maiores poetas brasileiros em atividade. Sua poesia blasfema e despudorada é da estirpe de Pasolini, Rimbaud, Leautréamont, Sousândrade, e todos os nossos malditos maiores. O artista plástico Valdir Rocha é taxativo: loquaz, perverso, mordaz, contundente, imprevisto, surreal, etc., e o poeta e crítico Carlos Felipe Moisés decreta: diabolicamente angelical ou angelicalmente diabólico. E o olhar da poeta e diplomata, Ana Paula Arendt: Existe uma linha tênue entre o gênio e o louco; mas Celso de Alencar consegue ser ambos: gênio e louco ao mesmo tempo. A escritora e jornalista Márcia Denser, afiança: Celso de Alencar é um antipoeta áspero e dissonante que trata de iluminar o prosaico com uma chama interna para provocar novas luzes. E Flávio Kothe revela: Sacerdote dos ritos cada vez mais esotéricos da poesia. O poeta e diplomata Marcio Catunda assevera: Com sua língua profética, escatológica, Celso de Alencar nos diz do absurdo em que se oculta a razão inominada. Já o poeta, jornalista e tradutor, Luiz Roberto Guedes afirma: A poesia de Celso de Alencar materializa mundos oníricos. O poeta e jornalista, Fred Maia, escreve: Faz poesia sem concessão, nada de versinhos sorridentes - é de uma natureza intensa e vibrante. A poeta e professora doutora de Literatura Contemporânea da UFPA, Giselle Ribeiro, anuncia: Escrita subversiva da linhagem de um tempo que ainda não nasceu. É reconhecido entre os grandes talentos da Geração de 1970. É autor de Salve Salve, Arco Vermelho, Os Reis de Abaeté, O Primeiro Inferno e Outros Poemas, O Pastor(infantojuvenil), A Outra Metade do Coração(CD), Sete(com 25 xilogravuras de Valdir Rocha), Testamentos, Poemas Perversos, O Coração dos Outros, Desnudo, Agora os Pássaros Estão Dormindo, além de antologias no Brasil e outros países.
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